Teologia apofática ou negativa (por Daniel Placido)
Se costuma chamar de 'teologia negativa' ou 'teologia apofática', à concepção teológica (e/ou teosófica) que apresenta Deus como incognoscível e insondável em sua essência (ou como 'algo' além de qualquer essência), como Deus abscôndito ou inefável, como Nada ou Deidade, além do próprio Ser - podemos saber de Deus mais o que Ele não é, do que o que Ele é-, e que é recorrente entre muitos místicos e esoteristas ; a teologia apofática assim se opõe à teologia catafática ou positiva, que acredita que Deus é um Ser racional e pode ser vislumbrado pela razão humana.
Porém, devemos balizar uma série de pontos.
Em primeiro lugar, a teologia negativa não se opõe tão radicalmente à teologia positiva, como se poderia pensar.
Em geral, se admite duas faces para o mesmo Deus: uma, a Deidade ou Deus insondável, que é impenetrável e incognoscível; e a outra, o Deus revelado ou manifesto, através de seus atributos ou nomes.
Em Plotino, grande inspirador da teologia negativa cristã, o Uno é insondável, além da essência e do discurso, porém, a contemplação deste gera uma identidade absoluta, sem diluir o sujeito e forma da alma, o que pode ser entendido, paradoxalmente, como algum resquício de positividade.
Para cristãos como Pseudo-Dionísio ou Mestre Eckhart, temos a Deidade, o Deus abscondito, que não se separa da sua face revelada, que é o Deus monoteísta e trinitário da teologia formal; ou para Jacob Boehme, que diz que o Deus Sem-Fundo (Ungrund), gera de si um Deus revelado, o Deus nascente, o Grund (Fundamento),
que é o Deus da Bíblia e da teologia- Boehme diz que a Trindade já está no Sem-Fundo imanifesta, e ela se revela propriamente como Pai (Fogo), Filho (Verbo ou Amor) e o Espírito Santo (Sopro).
No hinduísmo, especialmente no Vedanta e no não-dualismo shankariano, temos o Deus inqualificado, que é Brahman, e sua face positiva, que é Iswara, que é também tri-uno (Shiva, Vishnu, Kali).
No cabalismo judeu, temos o Ayn Sof (ou uma trindade imanifesta, ayn, ayn sof, ayn Sof aur), o Ilimitado, que vai se revelando indiretamente através de Seus atributos ou qualidades, como Justiça, Misercórdia, Rigor, etc. que formam a chamada Arvore da Vida ou Arvore sefirótica.
E temos ainda os gnósticos antigos, como certas correntes valentianas, com ressonância platônica, que colocavam o Deus Pai e Bom como incognoscível e inefável, e radicalmente transcendente; em alguns casos, este Deus não é um criador do cosmos, mas está além deste, e a criação foi feita -para os marcionistas-pelo Deus pessoal do AT, Jeová, considera maléfico e/ou incompetente (em alguns casos, este Deus é chamado de Ildabaoth, que pode ter criado o mundo diretamente, ou dado esta tafera aos Elohins ou Arcanjos).
Em segundo lugar, temos que observar que, no caso do cristianismo, comumente se associa a teologia negativa ao platonismo, mais místico, como em Pseudo-Dionisio e Mestre Eckhart, e a teologia catafática ao aristotelismo, mais racionalista, como no caso de Santo Tomás. Mas na verdade, a teologia tomista, além de ter influência do platonismo também -Agostinho e Pseudo-Dionísio, influências sobre o tomismo-, também perfilha uma posição apofática, na medida em que distingue o que é a argumentação racional sobre Deus, do que é sua essência última, um mistério superior da fé, e não da razão.
Em terceiro lugar, é preciso observar que os adeptos das teologias negativas não são propriamente "panteístas", apesar desta impressão que se tém muitas vezes.
Costumam ser cosmologicamente emanacionistas e processionistas (como Plotino
e cabalistas), alguns podem ser criacionistas, ou senão mistos com o criacionismo (como J. Boehme). Mas nestes casos, Deus é a causa eminente que cria os mundos superiores e inferiores, mas sem serem estes a substância divina em si. Deus é imanente, está nas coisas que cria ou impulsiona, mas as coisas não estão nele: panenteísmo, sendo Deus simultaneamente imanente e transcendente.
(N.- No caso gnóstico, se tende ao acosmismo, e a negar qualquer imanência divina no mundo).
Feitos estes esclarecimentos preliminares, tentaremos agora compreender melhor a teologia negativa com citações diretas de alguns de seus principais formuladores.
Também na milenar tradição taoísta:
"O caminho que pode ser expresso não é o Caminho (Tao) constante
O nome que pode ser enunciado não é o nome constante..." (1)
"O Caminho é invisível e não tem nome..." (41)
"O Constante que não pode ser nomeado
É o retorno à não-existência
É a expressão da não-expressão
É a imagem da não-existência
A isso se chama indeterminado..." (14)
Lao-Tsé, "Tao Te Ching".
Vamos apreciar Plotino a respeito:
"Portanto, devemos ter pressa de sair daqui e de nos libertarmos de outras coisas, a fim de que possamos abraçá-lo com a totalidade de nós mesmos, e não tenhamos parte alguma que não esteja em contato com Deus...Virá um tempo em que a contemplação será ininterrupta, posto que não haverá mais nenhum obstáculo do corpo. Aliás, não é a parte que contemplou que é velada pelo corpo, mas a outra [a alma racional]: aquela que, quando a que contemplou está inativa no que diz respeito à contemplação, está ativa quanto ao conhecimento racional que consiste em demonstrações, provas e diálogos da Alma consigo mesma. Mas o ato de contemplar e o contemplador não são raciocinantes: são superiores, anteriores, transcendentes ao raciocínio, como o próprio Objeto de sua contemplação...É verdade, que não é possível à natureza da Alma chegar ao Nada absoluto [Uno]...Todavia, quando está apenas em si e não no Ser, está no Sobre-Ser. Ao se aproximar d’ele, torna-se semelhante ao que está além do Ser...Esta é a vida dos deuses e dos homens divinos e bem-aventurados: ser livre em relação às coisas deste mundo; viver sem se deleitar nas coisas terrenas; fugir, na solidão, ao Solitário”.
ENÉADA, VI: 9
E:
“Antes de todas as coisas, tem de existir o [Uno] Simples, diferente de tudo o que dele advém, auto-existente, e no entanto capaz de estar presente nessas outras ordens...Não é possível conhecê-lo ou falar a respeito dele. Ele é descrito como ‘além do Ser’ ou ‘Sobre-Ser’...No entanto, como gerador [Uno] está acima da Inteligência, é necessária que o gerado seja a Inteligência. Mas porque a Inteligência não é gerador? Porque o ato da Inteligência é a intelecção...Por isso, a Inteligência não é simples, mas múltipla”.
ENÉADA V: 4
Certos gnósticos dos primeiros séculos do cristianismo, como através do Apócrifo de João :
"Ele é o Espírito invisível, do qual não é lícito pensá-lo como deus ou algo similar, porque é muito mais do que um deus visto não haver nada acima dele nem nenhum senhora a governá-lo. (...) Ele é ilimitável, pois não há nada antes dele nem que lhe ponha limites. É inecontrável, pois nada existe que possa exámina-lo. É imensurável, pois nada existe que possa medi-lo. É inefável e inominável, pois ninguém pode compreendê-lo nem nomeá-lo. (...) Não é grande nem pequeno, nem corpóreo nem incopóreo; não é nada que exista mas muito superior a tudo isso; ele não partilha nada na eternidade, porque o tempo não lhe pertence. (...) É porém o Eterno e a Grandiosidade que dá a eternidade, é a Luz que dá a Luz, é a Vida que dá a vida; é o Bendito que dá a benção, o Conhecimento que dá o conhecimento, a Graça que dá a graça" (NHC, 36, 7-9) [citado por A. de Macedo, O Esoterismo da Bíblia, p. 77]
Os cabalistas medievais, através de sua obra máxima, O Zohar :
"Antes que qualquer forma tivesse sido criada, Deus estava só; sem forma e semelhante a nada. E porque o homem não é capaz de conceber Deus como Ele realmente é, não lhe é permitido representá-Lo, nem em pintura, nem por Seu Nome, nem inclusive por um ponto. Mas depois de ter criado o homem, Deus quis ser conhecido por Seus atributos: como o Deus de Misericórdia, o Deus da Justiça, o Deus Todo-poderoso, o Deus dos Exércitos e Aquele Que É. É só pelo conhecimento de Seus atributos que podemos dizer: 'toda a terra está cheia de Sua glória'. Tampouco Ele deve ser comparado ao homem, que vem do pó e está destinado à morte.Ele está
acima de todas as criaturas e é maior que todos os atributos. Nem atributo, nem imagem, nem corpo; assemelha-se mais às águas, sem forma e sem limites...".
(O Zohar, Parte 2, trad. parcial Polar, p. 82).
A posição do mestre hindu Shankara , refletindo o Vedanta advaita ou não-dualista :
"Brahman é supremo. É a realidade- o um sem um segundo. É pura consciência, livre de qualquer mácula. É a própria serenidade. Não tem começo nem fim. Não conhece mudanças. É alegria eterna.
Bhahman transcende a aparência do múltiplo, criado por Maya. É eterno, perpetuamente fora do alcance da dor; é indiviso, imensurável, sem forma, sem nome, indiferenciado, imutável. Ele brilha com a Sua própria luz. Está em todas as coisas que podem ser conhecidas neste universo.
Os videntes iluminados O percebem como a realidade suprema, infinita, absoluta, sem partes- a pura consciência. E Nele descobrem que o conhecedor, o conhecimento e a coisa conhecida se tornam unos..."(A Jóia Suprema do Discernimento)
O clássico do cristianismo oriental antigo, Pseudo-Dionísio, o Areopagita :
"...Se é necessário dar figura ao desfigurado, dar forma ao que está sem forma, não é somente porque somos incapazes de contemplar diretamente essas realidades, mas porque convém às passagens místicas das Sagradas Escrituras ocultar sob a forma de enigmas, a santa e misteriosa unidade dessas inteligências que não pertencem a esse mundo. Porque nem todos são santos e como dizem as Sagradas Escrituras: "Mas nem em todos há a ciência..." (1Co 8:7).
Quanto ao caráter inadequado das imagens escriturísticas, é necessário responder a essa objeção afirmando que a revelação do sagrado se faz de dois modos: o primeiro modo procede por imagens adequadas ao seu objeto; o segundo modo pelo contrário passa pela inadequação das imagens que modela levada até à extrema inacreditibilidade, até o absurdo. É por isso que as Sagradas Escrituras se referem a Trindade sobreessencial com os nomes de Razão, Inteligência e Essência, manifestando assim o que convém atribuir a Deus de racionalidade e sabedoria: designando-A como Substância que subsiste por si própria, como causa verdadeira da existência de todos os seres, ou ainda, como Luz e Vida.
Essas designações são seguramente mais santas e parecem de algum modo superiores às imagens materiais. Mas na realidade elas são menos deficientes que as outras se se pretender significar toda a Verdade da própria Divindade que está para lá de toda a essência e de toda a vida e que não se caracteriza por nenhuma luz, da qual nenhuma razão e nenhuma inteligência pode dar uma imagem autêntica.
É por isso que também acontece de celebrar-se nas mesmas Escrituras a Trindade, representando-A de um modo que não é desse mundo, por imagens que não se Lhe assemelham de modo algum. Elas descrevem-Na como invisível, ilimitada e incompreensível, não procurando significar o que Ela é, mas o que Ela não é.
A meu ver, essa segunda maneira de celebrar a Santíssima Trindade Lhes convém melhor, porque seguindo a tradição sagrada nós temos razão em dizer que Ela não é nada do que são os outros seres, e nós ignoramos essa indefinível Sobreessência que não se pode pensar nem dizer.
Assim, as negações são verdadeiras no que concerne aos mistérios divinos, enquanto que toda afirmação pela positiva permanece inadequada. Convém mais ao caráter secreto d’Aquele que permanece em si próprio incomum, não revelar o invisível a não ser através de imagens sem semelhança com o seu objeto."
(Hierarquia Celeste).
Outro mestre do cristianismo oriental, São Gregório Palamas :
"E então somente há verdade naquilo que conhecemos a respeito de Deus, quando nos sensibilizamos com o fato de que nada podemos conhecer a respeito Dele".
(citado por H. Smith)
No caso do aristotélico Tomás de Aquino, também influenciado pelo platonismo (via Agostinho e pseudo-Dionísio):
"Com efeito, não podemos captar a respeito de Deus o que é, mas o que não é e como o resto se refere a Ele, como é patente a partir do que foi dito anteriormente".
(Suma contra os gentios)
No caso do místico renano e medieval Mestre Eckhart:
"Assim eu peço à Deus que me livre de Deus".
"Aqueles que querem estudar Deus e dizer o que ele é, saibam que é proibido".
(Sermões)
E no do místico também alemão, Nicolau de Cusa:
"(...) você será levado até a verdade, conduzindo sua inteligência muito alto, acima das palavras, elas lhe propiciarão uma grande felicidade; pois, na douta ignorânia, você progredirá por este caminho no qual, tanto quanto é permitido a um homem zeloso, que se elevou utilizando as forças da natureza, você poderá ver o máximo ele mesmo, único e supremo, que ultrapassa toda compreensão: Deus, em sua unidade e trindade para sempre benditas".
(Douta ignorância)
De Jacob Boehme, o exponte máximo da teosofia ocidental :
"O Sem-Fundo (Ungrund) é um eterno Nada, mas cria um eterno início como uma atração [ou desejo]. Pois no Nada há uma atração por algo, mas como nada há com que possa criar algo, a própria atração o cria. No entanto, a atração também é um Nada ou apenas uma desejosa busca. Essa é a eterna origem da magia [divina], que cria em si, onde nada há. Cria algo de Nada, e apenas em si mesma, embora essa atração nada mais seja que um simples desejo. Ela nada tem e nada há a partir do qual possa criar algo, tampouco um lugar onde possa encontrá-lo ou repousar". (Mysterium pansophicum, 1620)
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
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