Vou tentar expor um pouco o que seriam a Idade Sombria -Kali Yuga-, Agartha e a escatologia do fim do mundo, segundo o que alguns chamam de esoterismo tradicional, ou simplesmente "Tradição" (porém, neste caso, também se inclue o complemento ao esoterismo, que é o exoterismo ou a religião); porém não espero de ninguém acordo acrítico com estas informações, nem que aceitem completamente a idéia de "esoterismo tradicional" . Se trata de uma exposição; que é diferente de adesão - menos ainda, de uma adesão dogmática.
Há favor do que se vai expor, existe, além da concordância entre diferentes fontes qualificadas e tradicionais, neste assunto, as próprias manifestações de tendências perturbadoras e problemáticas no mundo atual.
No final do século 19, o esoterista Saint Yves de Alveidre trouxe informações sobre um misterioso Reino, por muitos tomados como pura lenda: Agartha.
Agartha é uma localidade indeterminada e lendária, em algum lugar da Ásia Central. Trata-se dum reino subterrâneo e inacessível aos profanos, contendo um povo ou raça super-desenvolvida, que é governado por um enigmático senhor: o Rei do Mundo. As informações trazidas por Saint-Ives, são completadas pelos relatos de Ossendowski, na obra "Homens, bestas e deuses", trazendo dados sobre a realidade do Reino de Agartha (na Mongólia? No Tibet?), e as profecias atribuídas ao seu Rei.
Enfim, René Guénon, em sua obra "O Rei do Mundo", retrabalha estas informações, á luz da Tradição primordial. Agartha, para Guénon é emblema do Centro da Tradição, imagem geográfica do Centro do Mundo e matriz da Tradição primórdia.
Guénon revela que o Soberano de Agartha, rei e sacerdote, é Senhor ou Rei deste nosso mundo todo, no sentido de ser o mediador entre Deus e a humanidade, e na sua função de mantenedor da lei e ordem universais- e da Tradição primordial.
Em cada ciclo cósmico e humano, a Tradição é representa por um centro, aos qual podem estar ligados centros secundários...Hiperbórea, Atlântida, Mistérios gregos, Castelo do Graal, Reino do Preste João, Avalon, Glastonbury. São símbolos destes centros enigmáticos da Tradição, eterna, super-humana, unânime-segundo Guénon.
Conta-se que Parsifal levou o Graal para o Oriente-Reino do Preste João-;a guerreira catara Esclarmunde virou pomba, e fez o Graal despencar em alguma montanha inacessível; os Rosacruzes partiram da Europa para a Índia; Swedenborg viu que a Palavra perdida estava na Mongólia; Ana K. Emmerich, que o Graal estava no Tibet; e o Conde Saint-Germain, antes de desaparecer, teria anunciado que ia repousar no Himalaia.
Quando as condições se tornam inóspitas e os homens blasfemos e impuros, os iniciados, e com eles a Tradição, retornam ao Centro misterioso, esperando novas condições; segundo os tradicionalistas...
Curiosamente, esta profecia abaixo é atribuída ao Rei do Mundo, e datada de 1890; depois foi compilada por F. Ossendowski. Ela trata do presente "Kali Yuga", ou Idade Sombria, que seria a época de degeneração e perda de tradicionalidade, já prevista pela Tradição, e que coincide nesta ótica com o mundo moderno e contemporâneo:
Cada vez mais os homens esquecerão as suas almas, preferindo ocupar-se dos seus corpos. A maior corrupção reinará sobre a terra. Os homens tornar-se-ão idênticos aos animais ferozes, embebidos no sangue de seus irmãos.O ‘Crescente’ se aniquilará e seus adeptos cairão em miséria e guerra perpétua. Seus conquistadores serão iluminados pelo Sol, mas não se elevarão duas vezes; acontecerá a maior das desgraças, que culminará em injúrias diante de outros povos. As coroas dos reis, grandes e pequenos, cairão: uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito,... . Haverá uma guerra terrível entre todas as nações. Os oceanos se tingirão com o sangue de irmãos contra irmãos. A terra e o fundo dos mares ficarão cobertos de ossadas. Povos inteiros morrerão de fome ou por moléstias desconhecidas ou pela prática de crimes não previstos nos códigos com que se regem os homens, e isto por nunca terem sido vistos iguais na terra. As maiores e mais belas cidades serão destruídas pelo fogo. Os pais revoltaram-se contra o filho, o irmão contra o irmão, a mãe contra a filha. O vício, o crime, a destruição do corpo e da alma continuarão a sua rota fatal. As famílias serão divididas. O amor e a fidelidade desaparecerão porque a prostituição reinará até nos lugares mais sagrados. Em dez mil homens, um só viverá, mesmo assim, louco e sem forças, não encontrando nem habitação nem alimento. Toda terra ficará deserta. Deus lhe voltará as costas. Sobre ela cairá o espesso véu da noite e da morte... Então enviarei um Povo agora desconhecido, que com mão firme ARRANCARÁ AS MÁS ERVAS DA LOUCURA E DO VÍCIO E CONDUZIRÁ AQUELES QUE FICARAM FIÉIS AO ESPÍRITO DE VERDADE NA BATALHA CONTRA O MAL – Eles fundarão uma nova vida na terra, purificada pela morte das nações. Após cinqüenta anos, apenas três grandes reinos aparecerão; estes viverão felizes durante setenta e um anos. Então os povos de Agarthi sairão das suas cavernas subterrâneas e aparecerão sobre a superfície da Terra.
O final deixa uma ponta de esperança; como outro tradicionalista -Fulcanelli-, revela, o Kali Yuga, sendo idade da morte, também pode ser de renascimento, de fim de um ciclo, para uma novo. Não é propriamente o fim deste mundo ou de tudo; mas de um mundo determinado.
Olhando o mundo após 1890, ou após 1921, quando Ossendowski a traz a lume, não parece que ela se realizou mesmo?
Ainda mais pertubador, é analisar profecias tradicionais e milenares, que parecem concordar com a profecia do Rei do Mundo e com a situação do mundo atual:
Razas de esclavos serán los señores del mundo. Los jefes serán de naturaleza violenta. Los jefes, en lugar de proteger a sus súbditos, los explotarán. Sólo los bienes conferirán rango. El único vínculo entre los sexos será el placer. La tierra ya no será apreciada más que por sus riquezas minerales. El tipo de vida será uniforme en el seno de una promiscuidad general. Quien distribuya más dinero dominará a los hombres. Cualquier hombre se imaginará ser igual a un brahman (autoridad espiritual). La gente experimentará terror a la muerte, y la pobreza les espantará. Las mujeres serán simplemente un objeto de satisfacción sexual.
(Visnu-Puranas)
"Na horrível época do fim dos tempos, os homens serão malévolos, falsos, ruins e obtusos e imaginarão ter alcançado a perfeição, mas estarão longe disso".
(Sutra budista)
"Nos últimos dias sobreviverão tempos perigosos, porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, profanos, sem afeição, sem paz, caluniadores, incontinentes, desumanos, sem benignidade, traidores, mais amigos dos prazeres do que de Deus, com uma aparência de piedade, mas sem sua realidade..."
(S. Paulo, II Timóteo, 3: 1-7)
Bem, há muitos dados e elementos para se reflitir seriamente aqui, pela ótica do que professam as religiões tradicionais a respeito.
Daniel Placido
*************************************************
Fontes:
-Obras de René Guénon que tratam destes temas, como O Rei do Mundo, Apreciações sobre a Iniciação, Teosofismo...., Símbolos fundamentais da ciência sagrada, Formas tradicionais e ciclos cósmicos, etc., podem ser baixadas em espanhol neste site:
http://www.euskalnet.net/graal/index2.htm
-O Livro da Tradição, Jean e Michel Angebert, Difel
-Os caminhos do Graal, Patricik riviere, Ibrasa
-Para entender melhor esta noção de Tradição primordial em R. Guénon, sugiro este artigos de Jean Tourniac:
http://www.euskalnet.net/graal/turinac1.htm
http://www.euskalnet.net/graal/turinac2.htm
- O Mistério das catedrais, Fulcanelli, Edições 70
-Artigo "Esoterismo como invenzione", Pierre Riffard
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Blog antigo 5: Resenha sobre livro de Mauro Reli
“Rosacrucianismo sem Véus: a verdade que faltava”, Mauro Alfredo Chagas Reli.
Link para adquirir na Livraria Cultura:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=597547
O autor desta obra, Mauro Reli, passou na juventude pela experiência de drogas, assim como pela desilusão com as religiões oficiais, até achar uma saída no mundo das sociedades esotéricas. Foi durante anos membro da AMORC, e depois da Rosacruz Áurea, além de conhecer diretamente muitos outros grupos do gênero...Desligado hoje de qualquer organização, segue na senda individual, estudando independentemente as obras de Guénon, Boehme, Rumi, Swedenborg, Steiner e outros.
Neste livro, Mauro Reli, baseado numa ampla pesquisa histórico-documental, assim como em suas vivências diretas neste meio, procura fazer um balanço crítico das principais instituições/grupos/personalidades envolvidas com a polêmica Rosacruz, desde o séc 17 até hoje, com destaque particular para a cena contemporânea.
Muitos desses grupos possuem hierarquia interna; sistema de “iniciação”; materiais doutrinários (livros, revistas, bibliotecas, livrarias etc.); sistema de contribuição e financiamento; influência político-social, etc. Mas apesar das suas inegáveis e evidentes similitudes, não é incomum que entre si todos atuem de forma sectária, cada um apresentando-se como portador do “verdadeiro rosacrucianismo”. Mauro Reli não aceita nada disso sem contestação, para questionar não só o exclusivismo desses grupos, mas também a veracidade das informações e interpretações por eles veiculadas.
Antes de mais nada, e mencionando alguns dos melhores historiadores do assunto (F. A. Yates, C. MacIntosih, B. Gorceix e outros), Mauro Reli dá sua visão pessoal sobre questões fundamentais que já no séc. 17 preocupavam tanto os simpatizantes quanto os adversários da Rosacruz: existiu algum C. Rosenkreutz de verdade? a Ordem Rosacruz é uma entidade histórico-social, ou um mero símbolo? quem foi o (s) autor(es) dos manifestos rosacruzes, e quais seus verídicos objetivos? Sem pretender encerrar assunto tão antigo e vasto, Mauro Reli acredita ser improvável a existência histórica de algum C. Rosenkreutz (trata-se de um mito com sentido iniciático-espiritual), assim como a de uma Ordem Rosacruz; a origem do movimento rosacruz não tem nada a ver com o exótico Egito primordial (como acreditam a AMORC e outros), mas deve ser buscada nos círculos teológico-religiosos da Boêmia do séc. 17 e também em torno do teólogo alemão J. -V. Andreae, residente em Tübigen - o qual é o provável autor ou inspirador dos manifestos outrossim.
Mauro vasculha primeiramente as organizações que têm sido apontadas como precursoras indiretas (ex.:templários) e diretas (ex.:Ordem da Jarreteira), assim como as personalidades históricas (Lutero, Paracelso, H. Khunrath etc.), para em seguir listar os idelizadores prováveis e diretos do movimento rosacruz no séc. 17 (J. –V. Andreae, M. Maier, R. Fludd etc.), e ademais os pensadores costumeiramente associados ao mesmo (F. Bacon, T. Campanella, J. Boehme, Saint-Martin etc.). Aqui Mauro contesta a pretensa “filiação” rosacruciana (estabelecida pela AMORC) de alguns, como por exemplo F. Bacon, J. Boehme e E. Swedenborg.
Em seguida apresenta ainda organizações levando o nome Rosacruz desde o séc. 17, bem como seus fundadores e criadores; para ficar com algumas nesta lista enorme: Sociedade Frutificadora (C. Anhalt), R+C de Ouro (S. Richter), Ordem da Dourada Rosacruz (J. C. Woellner), Irmandade Eulis (P. B. Randolph), Golden Dawn (Mac Gregor Mathers), Fraternidade Rosacruz (Max Heindel), AMORC (H. S. Lewis), Rosacruz Áurea (J. Leene/Rijckenborgh), etc.
Todavia, o capítulo mais supreendente do livro é aquele chamado “Toda a verdade sobre a AMORC”, da qual Mauro foi membro, “iniciado” e dirigente durante vários anos, assim como de sua extensão, a TOM (Tradicional Ordem Martinista). Apresentando fontes e dados da própria AMORC (e outros), Mauro questiona duramente incongruências, omissões e adulterações, como por exemplo as versões contraditórias sobre a “iniciação” de H. S. Lewis, ou o ocultamento de suas relações com a OTO de A.Crowley. Mauro questiona em seguida a facilidade de admissão ao grupo e o ‘marketing’ grosseiro; os valores (obrigatórios) de taxas e custos, bem como a pouca transparência de sua gestão. E não tem meias palavras para espezinhar a autencidade “rosacruciana” da AMORC , seu exclusivismo arrogante, e as manipulações efetuadas – segundo Mauro.
Neste capítulo expõe ainda o grande cisma político-jurídico que culminou na destituição do Imperator da AMORC no final dos anos 80, Gary Lee Stewart, pois sendo este um cargo vitalício e recebido do próprio filho de H. S. Lewis, R. Lewis, não poderia ser suspendido jamais, a não se de forma ilegal e suspeita. E para finalizar Mauro apresenta dados sobre um cisma menor, mas não menos ilegítimo e esdrúxulo, ocorrido na Loja de São Paulo (1997), no qual esteve diretamente envolvido, e contribuiu assaz para seu desligamento definitivo da AMORC.
Ao final deste manual introdutório sobre Rosacruz, o qual está longe de ser um mero relato de mágoas pessoais contra ex-colgas, Mauro não nega o valor espiritual desses grupos todos, desde que eles não apresentem os objetivos espirituais como coisa fácil de ser conquistada, ou que os mesmos sejam desvirtuados por dinheiro, poder, mentira, arrogância e mesquinharia. Se for assim, é mellhor então que a águia voe sozinha, como pensa Mauro sob a inspiração sufi...
DANIEL PLACIDO
Link para adquirir na Livraria Cultura:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=597547
O autor desta obra, Mauro Reli, passou na juventude pela experiência de drogas, assim como pela desilusão com as religiões oficiais, até achar uma saída no mundo das sociedades esotéricas. Foi durante anos membro da AMORC, e depois da Rosacruz Áurea, além de conhecer diretamente muitos outros grupos do gênero...Desligado hoje de qualquer organização, segue na senda individual, estudando independentemente as obras de Guénon, Boehme, Rumi, Swedenborg, Steiner e outros.
Neste livro, Mauro Reli, baseado numa ampla pesquisa histórico-documental, assim como em suas vivências diretas neste meio, procura fazer um balanço crítico das principais instituições/grupos/personalidades envolvidas com a polêmica Rosacruz, desde o séc 17 até hoje, com destaque particular para a cena contemporânea.
Muitos desses grupos possuem hierarquia interna; sistema de “iniciação”; materiais doutrinários (livros, revistas, bibliotecas, livrarias etc.); sistema de contribuição e financiamento; influência político-social, etc. Mas apesar das suas inegáveis e evidentes similitudes, não é incomum que entre si todos atuem de forma sectária, cada um apresentando-se como portador do “verdadeiro rosacrucianismo”. Mauro Reli não aceita nada disso sem contestação, para questionar não só o exclusivismo desses grupos, mas também a veracidade das informações e interpretações por eles veiculadas.
Antes de mais nada, e mencionando alguns dos melhores historiadores do assunto (F. A. Yates, C. MacIntosih, B. Gorceix e outros), Mauro Reli dá sua visão pessoal sobre questões fundamentais que já no séc. 17 preocupavam tanto os simpatizantes quanto os adversários da Rosacruz: existiu algum C. Rosenkreutz de verdade? a Ordem Rosacruz é uma entidade histórico-social, ou um mero símbolo? quem foi o (s) autor(es) dos manifestos rosacruzes, e quais seus verídicos objetivos? Sem pretender encerrar assunto tão antigo e vasto, Mauro Reli acredita ser improvável a existência histórica de algum C. Rosenkreutz (trata-se de um mito com sentido iniciático-espiritual), assim como a de uma Ordem Rosacruz; a origem do movimento rosacruz não tem nada a ver com o exótico Egito primordial (como acreditam a AMORC e outros), mas deve ser buscada nos círculos teológico-religiosos da Boêmia do séc. 17 e também em torno do teólogo alemão J. -V. Andreae, residente em Tübigen - o qual é o provável autor ou inspirador dos manifestos outrossim.
Mauro vasculha primeiramente as organizações que têm sido apontadas como precursoras indiretas (ex.:templários) e diretas (ex.:Ordem da Jarreteira), assim como as personalidades históricas (Lutero, Paracelso, H. Khunrath etc.), para em seguir listar os idelizadores prováveis e diretos do movimento rosacruz no séc. 17 (J. –V. Andreae, M. Maier, R. Fludd etc.), e ademais os pensadores costumeiramente associados ao mesmo (F. Bacon, T. Campanella, J. Boehme, Saint-Martin etc.). Aqui Mauro contesta a pretensa “filiação” rosacruciana (estabelecida pela AMORC) de alguns, como por exemplo F. Bacon, J. Boehme e E. Swedenborg.
Em seguida apresenta ainda organizações levando o nome Rosacruz desde o séc. 17, bem como seus fundadores e criadores; para ficar com algumas nesta lista enorme: Sociedade Frutificadora (C. Anhalt), R+C de Ouro (S. Richter), Ordem da Dourada Rosacruz (J. C. Woellner), Irmandade Eulis (P. B. Randolph), Golden Dawn (Mac Gregor Mathers), Fraternidade Rosacruz (Max Heindel), AMORC (H. S. Lewis), Rosacruz Áurea (J. Leene/Rijckenborgh), etc.
Todavia, o capítulo mais supreendente do livro é aquele chamado “Toda a verdade sobre a AMORC”, da qual Mauro foi membro, “iniciado” e dirigente durante vários anos, assim como de sua extensão, a TOM (Tradicional Ordem Martinista). Apresentando fontes e dados da própria AMORC (e outros), Mauro questiona duramente incongruências, omissões e adulterações, como por exemplo as versões contraditórias sobre a “iniciação” de H. S. Lewis, ou o ocultamento de suas relações com a OTO de A.Crowley. Mauro questiona em seguida a facilidade de admissão ao grupo e o ‘marketing’ grosseiro; os valores (obrigatórios) de taxas e custos, bem como a pouca transparência de sua gestão. E não tem meias palavras para espezinhar a autencidade “rosacruciana” da AMORC , seu exclusivismo arrogante, e as manipulações efetuadas – segundo Mauro.
Neste capítulo expõe ainda o grande cisma político-jurídico que culminou na destituição do Imperator da AMORC no final dos anos 80, Gary Lee Stewart, pois sendo este um cargo vitalício e recebido do próprio filho de H. S. Lewis, R. Lewis, não poderia ser suspendido jamais, a não se de forma ilegal e suspeita. E para finalizar Mauro apresenta dados sobre um cisma menor, mas não menos ilegítimo e esdrúxulo, ocorrido na Loja de São Paulo (1997), no qual esteve diretamente envolvido, e contribuiu assaz para seu desligamento definitivo da AMORC.
Ao final deste manual introdutório sobre Rosacruz, o qual está longe de ser um mero relato de mágoas pessoais contra ex-colgas, Mauro não nega o valor espiritual desses grupos todos, desde que eles não apresentem os objetivos espirituais como coisa fácil de ser conquistada, ou que os mesmos sejam desvirtuados por dinheiro, poder, mentira, arrogância e mesquinharia. Se for assim, é mellhor então que a águia voe sozinha, como pensa Mauro sob a inspiração sufi...
DANIEL PLACIDO
domingo, 9 de novembro de 2008
Blog antigo 4: E-book de António de Macedo
Este e-book do link:
http://www.fraternidaderosacruz.org/antologia_antoniodemacedo.zip
, Alquimia espiritual dos Rosacruzes e outros ensaios, é uma coletânea de artigos, textos e excertos de livros do Prof. António de Macedo, sobre vários temas: rosacrucianismo, cosmologia, alquimia, esoterismo cristão, paleocristianismo, judaísmo, teologia, ética, a questão da iniciação feminina etc.
Pode ser baixada gratuitamente, no link acima. O e-book está zipado, e o arquivo está em pdf (Adobe Reader).
O prefácio abaixo é mesmo que está na coletânea.
Prefácio
A presente coletânea de artigos e textos de António de Macedo reúne um pouco das várias facetas de sua obra acadêmica, ensaística e mística, servindo de introdução à mesma. Compõe-se de artigos dispersos em diferentes sítios da Internet; materiais inéditos apresentados em colóquios e encontros acadêmicos; excertos de livros publicados; entrevistas concedidas, nos últimos anos etc. Tudo complementado por ilustrações, apêndices e adendos.
António de Macedo, nascido em 1931, em Portugal (onde reside ainda), é cineasta, esteta,ensaísta, romancista, professor de Esoterologia Bíblica (Universidade Nova de Lisboa), membro da Rosicrucian Fellowship e (como ele mesmo prefere) “alquimístico”. Em todas essas áreas e especialidades tem se destacado, obtendo reconhecimento internacional, todavia, por limites de espaço, e coerente com a proposta da presente antologia, vamos nos ater apenas ao António de Macedo esoterólogo e esoterista.
O que é Esoterologia? Significa “estudo do Esoterismo”, e por tal hoje se entende a disciplina acadêmica surgida há alguns decênios em universidades importantes tais como Sorbonne (França), Estadual de Michigan (EUA), Amsterdam e Utrecht (Holanda), Londres (EUA), Turim (Itália), Novakchott (Mauritânia) e outras, acompanhando uma reaproximação entre o mundo dos esoteristas, de um lado, e o mundo acadêmico, do outro, após uma “déblacê” de certo positivismo...Reaproximação esta fundada em sutis distinções metodológicas e ontológicas (Cf. “O que é Esoterismo”, A. de Macedo, nesta
coletânea).
E dentro deste quadro esboçado, A. de Macedo se destaca outrossim como
especialista/professor de uma sub-disciplina, baseada numa abordagem transdisciplinar combinando hermenêutica, filologia, teodicéia, sociologia da religião etc.: a Esoterologia Bíblica, ie, “estudo do Esoterismo da Bíblia”; e diante de possíveis objeções vindas de outros estudiosos bíblicos, ou mesmo
autoridades religiosas, A. de Macedo trata de esclarecer: “Que os próprios textos da Bíblia contêm material esotérico, é um dado observacional indiscutível, além do facto, também indiscutível, de terem sido objeto de interpretações esotéricas, quer por parte da tradição judaica, quer da tradição cristã desde os seus primórdios” (In: “O Esoterismo da Bíblia”. Lisboa: Ésquilo, 2006, p.19).
Enquanto no mundo civilizado atual a Esoterologia obtém força, credibilidade e espaço (por exemplo, em Portugal, nosso irmão de laços histórico-culturais, além de A. de Macedo, nesta área ainda são notáveis J. M. Anes e J.A. Mourão, também da Universidade Nova de Lisboa), no Brasil em contraste desconhecemos em absoluto qualquer iniciativa institucional – por motivos cuja análise foge ao escopo
deste Prefácio- , sendo escassa a bibliografia especializada, mal existindo traduções de obras básicas (a não ser: “O Esoterismo: uma antologia”, P. Riffard, Mandarim; e “O Esoterismo”, A. Faivre, Papirus). Por semelhante razão, outrossim o contato do leitor virtual de aquém-mar com a obra de A. de Macedo implica em certo sentido acessar o que há de mais ousado, inovador e sério na área acadêmico-esotérica
pelo mundo afora, não sem contar com a feliz coincidência idiomática, ie, a tardia “flor do Lácio”...
Mas não só acadêmico: António de Macedo é místico rosacruzista, membro da Fraternidade Rosacruz, fundada no início do séc. XX, nos EUA, pelo ocultista dinamarquês Carl Louis Von Grasshof que ao emigrar para a América adotou o pseudônimo de Max Heindel (Cf. “Max Heindel em busca do Templo
Ignoto”, “Max Heindel: uma cronologia”, “Origem da oração rosacruz”, “Prayer and the new Panacea”), se inserindo merecidamente numa linhagem de pensadores fecundos e versáteis engendrados por este movimento, a titulo de exemplo, Manly P. Hall e Corinne Heline (Cf. “Corinne Heline”, “Corinne Heline: uma vida em imagens”, “Meu tributo à Max Heindel”). Destarte, seja revolvendo a tradição rosacruz (Cf. “Alquimia espiritual dos rosacruzes”, “A cosmologia dos rosacruzes”), herdeira do hermetismo e da alquimia, ou seja esquadrinhando os múltiplos aspectos (esotéricos, teológicos, históricos) do paleocristianismo (Cf. “Logos e Lithos”, “Paulo: o iniciado”, “O uso do Pergaminho e o Pecado original”, “Inquisição e Tradição esotérica”, “As diferentes concepções sobre o Jesus histórico”, “Entrevista: Esoterologia Bíblica”), por sua vez tributário das
tradições judaica (Cf. “A Misteriosa escrita de Jesus”, “A ressurreição corporal judaica”) e helênica, A. de Macedo demonstra conhecer os fundamentos do Esoterismo do Ocidente, transitando de modo livre pelas vários autores, escolas e correntes, de antanho e de hoje. Além do mais, é-lhe possível ainda falar de problemas intrínsecos da história oculta de Portugal (Cf. “Magia Áurea: o eneagrama sagrado”), da
questão premente da iniciação feminina e do feminino universal (Cf. “Eu e o Pai somos Um”, “Iniciação feminina: astrológica, mágica, alquímico-hermética ou cabalística?”), ou filosofar sobre as relações entre estética, ética e gnose (Cf. “Graal Branco, Graal Negro”, “Regresso ao Pai de Amor”, “O pássaro azul da
felicidade”), sem deixar de apresentar um lado mais intimista e desenvolto (Cf. “Entrevista a Estela Guedes”).
E isso é apenas uma tentativa inábil de nossa parte em resumir o presente material por temas centrais, entretanto, a bem da verdade, não há como fazê-lo, pois todos os textos e artigos se complementam na forma e no conteúdo, na amplitude e na profundidade, refletindo a unidade deste rico, colorido e fascinante moisaco que é a obra de António de Macedo.
São Paulo, 17 de outubro de 2007.
Daniel R. Plácido*
(*com a colaboração de Alexandre David Passos)
http://www.fraternidaderosacruz.org/antologia_antoniodemacedo.zip
, Alquimia espiritual dos Rosacruzes e outros ensaios, é uma coletânea de artigos, textos e excertos de livros do Prof. António de Macedo, sobre vários temas: rosacrucianismo, cosmologia, alquimia, esoterismo cristão, paleocristianismo, judaísmo, teologia, ética, a questão da iniciação feminina etc.
Pode ser baixada gratuitamente, no link acima. O e-book está zipado, e o arquivo está em pdf (Adobe Reader).
O prefácio abaixo é mesmo que está na coletânea.
Prefácio
A presente coletânea de artigos e textos de António de Macedo reúne um pouco das várias facetas de sua obra acadêmica, ensaística e mística, servindo de introdução à mesma. Compõe-se de artigos dispersos em diferentes sítios da Internet; materiais inéditos apresentados em colóquios e encontros acadêmicos; excertos de livros publicados; entrevistas concedidas, nos últimos anos etc. Tudo complementado por ilustrações, apêndices e adendos.
António de Macedo, nascido em 1931, em Portugal (onde reside ainda), é cineasta, esteta,ensaísta, romancista, professor de Esoterologia Bíblica (Universidade Nova de Lisboa), membro da Rosicrucian Fellowship e (como ele mesmo prefere) “alquimístico”. Em todas essas áreas e especialidades tem se destacado, obtendo reconhecimento internacional, todavia, por limites de espaço, e coerente com a proposta da presente antologia, vamos nos ater apenas ao António de Macedo esoterólogo e esoterista.
O que é Esoterologia? Significa “estudo do Esoterismo”, e por tal hoje se entende a disciplina acadêmica surgida há alguns decênios em universidades importantes tais como Sorbonne (França), Estadual de Michigan (EUA), Amsterdam e Utrecht (Holanda), Londres (EUA), Turim (Itália), Novakchott (Mauritânia) e outras, acompanhando uma reaproximação entre o mundo dos esoteristas, de um lado, e o mundo acadêmico, do outro, após uma “déblacê” de certo positivismo...Reaproximação esta fundada em sutis distinções metodológicas e ontológicas (Cf. “O que é Esoterismo”, A. de Macedo, nesta
coletânea).
E dentro deste quadro esboçado, A. de Macedo se destaca outrossim como
especialista/professor de uma sub-disciplina, baseada numa abordagem transdisciplinar combinando hermenêutica, filologia, teodicéia, sociologia da religião etc.: a Esoterologia Bíblica, ie, “estudo do Esoterismo da Bíblia”; e diante de possíveis objeções vindas de outros estudiosos bíblicos, ou mesmo
autoridades religiosas, A. de Macedo trata de esclarecer: “Que os próprios textos da Bíblia contêm material esotérico, é um dado observacional indiscutível, além do facto, também indiscutível, de terem sido objeto de interpretações esotéricas, quer por parte da tradição judaica, quer da tradição cristã desde os seus primórdios” (In: “O Esoterismo da Bíblia”. Lisboa: Ésquilo, 2006, p.19).
Enquanto no mundo civilizado atual a Esoterologia obtém força, credibilidade e espaço (por exemplo, em Portugal, nosso irmão de laços histórico-culturais, além de A. de Macedo, nesta área ainda são notáveis J. M. Anes e J.A. Mourão, também da Universidade Nova de Lisboa), no Brasil em contraste desconhecemos em absoluto qualquer iniciativa institucional – por motivos cuja análise foge ao escopo
deste Prefácio- , sendo escassa a bibliografia especializada, mal existindo traduções de obras básicas (a não ser: “O Esoterismo: uma antologia”, P. Riffard, Mandarim; e “O Esoterismo”, A. Faivre, Papirus). Por semelhante razão, outrossim o contato do leitor virtual de aquém-mar com a obra de A. de Macedo implica em certo sentido acessar o que há de mais ousado, inovador e sério na área acadêmico-esotérica
pelo mundo afora, não sem contar com a feliz coincidência idiomática, ie, a tardia “flor do Lácio”...
Mas não só acadêmico: António de Macedo é místico rosacruzista, membro da Fraternidade Rosacruz, fundada no início do séc. XX, nos EUA, pelo ocultista dinamarquês Carl Louis Von Grasshof que ao emigrar para a América adotou o pseudônimo de Max Heindel (Cf. “Max Heindel em busca do Templo
Ignoto”, “Max Heindel: uma cronologia”, “Origem da oração rosacruz”, “Prayer and the new Panacea”), se inserindo merecidamente numa linhagem de pensadores fecundos e versáteis engendrados por este movimento, a titulo de exemplo, Manly P. Hall e Corinne Heline (Cf. “Corinne Heline”, “Corinne Heline: uma vida em imagens”, “Meu tributo à Max Heindel”). Destarte, seja revolvendo a tradição rosacruz (Cf. “Alquimia espiritual dos rosacruzes”, “A cosmologia dos rosacruzes”), herdeira do hermetismo e da alquimia, ou seja esquadrinhando os múltiplos aspectos (esotéricos, teológicos, históricos) do paleocristianismo (Cf. “Logos e Lithos”, “Paulo: o iniciado”, “O uso do Pergaminho e o Pecado original”, “Inquisição e Tradição esotérica”, “As diferentes concepções sobre o Jesus histórico”, “Entrevista: Esoterologia Bíblica”), por sua vez tributário das
tradições judaica (Cf. “A Misteriosa escrita de Jesus”, “A ressurreição corporal judaica”) e helênica, A. de Macedo demonstra conhecer os fundamentos do Esoterismo do Ocidente, transitando de modo livre pelas vários autores, escolas e correntes, de antanho e de hoje. Além do mais, é-lhe possível ainda falar de problemas intrínsecos da história oculta de Portugal (Cf. “Magia Áurea: o eneagrama sagrado”), da
questão premente da iniciação feminina e do feminino universal (Cf. “Eu e o Pai somos Um”, “Iniciação feminina: astrológica, mágica, alquímico-hermética ou cabalística?”), ou filosofar sobre as relações entre estética, ética e gnose (Cf. “Graal Branco, Graal Negro”, “Regresso ao Pai de Amor”, “O pássaro azul da
felicidade”), sem deixar de apresentar um lado mais intimista e desenvolto (Cf. “Entrevista a Estela Guedes”).
E isso é apenas uma tentativa inábil de nossa parte em resumir o presente material por temas centrais, entretanto, a bem da verdade, não há como fazê-lo, pois todos os textos e artigos se complementam na forma e no conteúdo, na amplitude e na profundidade, refletindo a unidade deste rico, colorido e fascinante moisaco que é a obra de António de Macedo.
São Paulo, 17 de outubro de 2007.
Daniel R. Plácido*
(*com a colaboração de Alexandre David Passos)
Blog antigo 3: Entrevista com António de Macedo
ENTREVISTA COM O PROF. ANTONIO DE MACEDO
Entrevista com Prof.António de Macedo: esoterologia bíblica, apócrifos, gnosticismo, hermenêutica bíblica, rosacrucianismo, iniciação, etc.
Concedida a Daniel Placido, em abril de 2007 (por email).
* António de Macedo, nascido em 1931, é professor de Esoterologia Bíblica na Universidade Nova de Lisboa, além de sociólogo, cineasta, escritor. etc.
Site: http://paginasesotericas.tripod.com
Livro "O Esoterismo da Bíblia":http://www.esquilo.com/
* Daniel Placido, nascido em 1983, é livreiro e pesquisador do Esoterismo.
site: www.polareditorial.com.br
1) O que é a Esoterologia Bíblica, afinal? Como o senhor chegou até a mesma? E como tem sido sua experiência de professor desta disciplina em uma universidade (não esquecendo a pouca simpatia do meio acadêmico tradicional quanto ao tema “Esoterismo”)?
A Esoterologia é uma ciência histórica e etno-sociológica que resultou de estudos sérios, em meios académicos, das correntes esotéricas e místicas, consideradas como realidades histórico-sociológicas, que, independentemente da sua presumível «verdade» ou «falsidade», interferiram e interferem nos respectivos contextos culturais e sociais, afectando formas e conteúdos literários, artísticos, filosóficos, educacionais, comportamentais, etc. O seu objecto de estudo é o esoterismo, definido como corpus de textos que constituem a expressão dum certo número de correntes espirituais, na história Ocidental desde a Idade Média até aos nossos dias, ligadas entre si por uma determinada «forma de pensamento» (correspondência, mediadores, transmutação, transmissão, etc.) que subjaz a essas correntes — e, de acordo com esta definição, a Esoterologia faz parte dos currículos académicos de certas universidades, como a Universidade de Paris (França), as Universidades de Amesterdão e Utrecht (Holanda), a Universidade da Califórnia (E.U.A.), etc., bem como numa secção do Departamento de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa (Portugal). Alguns dos mais importantes esoterólogos da actualidade são, por exemplo, os professores catedráticos Antoine Faivre (França), Wouter J. Hanegraaff (Holanda), Pierre A. Riffard (Mauritânia), Arthur Versluis (E.U.A.), Roland Edighoffer (França), Karen-Claire Voss (E.U.A, Turquia), etc.
Especificamente, a Esoterologia bíblica debruça-se sobre os aspectos referidos atrás mas respeitantes apenas aos contextos bíblicos, investigando não só os conteúdos de carácter esotérico que se podem detectar na própria Bíblia, mas também as interpretações esotéricas que historicamente têm sido levadas a efeito sobre os livros bíblicos pelos mais diversos autores e correntes místicas e espirituais ao longo dos séculos, até à actualidade.
Quanto à minha experiência como professor devo dizer que tem sido das mais gratificantes, quer pelo empenho que eu prório sinto, desde há muitos anos, por uma matéria que me é muita cara, quer pela excelente recepção e adesão dos alunos aos temas tratados.
2) Na sua obra “Esoterismo da Bíblia”, o senhor comenta em determinada passagem sobre as distorções e equívocos engendrados por livros populares como “O Código da Vinci” (agora também filme), porquanto este tipo de literatura amiúde parte de uma interpretação crua e literal dos documentos apócrifos, além de ignorar a fidelidade aos documentos históricos disponíveis, como é nítido na idéia do “casamento” de Jesus e Maria Madalena. O senhor poderia falar um pouco disso?
Os muitos leitores d’ O Código Da Vinci com quem tenho contactado exprimem naturalmente as mais diversas opiniões, umas pró e outras contra, mas notei que um grande número deles acreditava que a investigação do autor Dan Brown para o seu livro tinha sido conduzida com honestidade e seriedade com base em documentos históricos, e, por outro lado, que se estaria agora a assistir a um processo de desmistificação da imagem de Jesus Cristo.
Ora, na verdade o processo de «desmistificação» de Jesus Cristo não é de agora, nem sequer apenas do passado século XX: é coisa que tem vindo a durar há cerca de 2.000 anos… Os primeiros foram os judeus que nos textos rabínicos e talmúdicos dos séculos II e III d.C. puseram a circular a história de que Maria atraiçoara José com um soldado romano chamado Pandira ou Panthera, e portanto Jesus seria «filho de Panthera» (em hebr.: Yeshu ben Panthira). Daí a confusão dos evangelistas, diziam os judeus, que confundiram as palavras gregas huios pantherou (filho de Pantera) com huios parthenou (filho duma virgem). Existem diversos textos do Talmude da Babilónia, como por exemplo os tratados ‘Aboda Zara, o Talmud Shabbat, o Sanhedrin, etc. onde se insiste nessa atribuição do nascimento de Jesus ao adultério de Maria.
Por outro lado, os autores pagãos dos primeiros séculos do Cristianismo, disseram o pior possível de Jesus e dos cristãos, como os filósofos Celso (Discurso Verdadeiro), Porfírio (Contra Christianos), Plotino (Enneadas Livro II, tratado IX), todos do séc. III, ou ainda Juliano (Contra Galilaeos), do séc. IV. A principal acusação era que Jesus seria um baixo mágico e um charlatão e que a falsa ressurreição não foi mais que um embuste dos seus sequazes (para não lhes chamar discípulos…), e portanto ou morreu mesmo e alguém roubou o corpo, ou então não morreu, e fingiu que ressuscitou porque se curou das feridas (há casos, embora raros, documentados por historiadores greco-romanos, de crucificados que sobreviveram e curaram-se dos ferimentos). Outros limitavam-se a acusar os cristãos de terem fabricado um Jesus mítico à semelhança das divindades pagãs, tais como Osíris, que morreu e ressuscitou, Dionysos, que também morreu e ressuscitou, filho da virgem Semele e do Pai dos deuses, Zeus, ou ainda Mithra, muito venerado no mundo romano, também filho da deusa-virgem Anaita, conhecido mito solar celebrado a 25 de Dezembro — data que a Igreja aproveitou; etc. Já no século II d.C., os autores patrísticos Justino Mártir (Diálogo com Tryphon, Apologia I e Apologia II) e Ireneu de Lião (Adversus Haereses) tiveram de combater essas «calúnias».
Ao longo dos séculos o processo de denegrir e aviltar a imagem de Jesus, ou então ajeitá-la aos gostos e preferências de cada época, não é novo e tem passado por diversas fases. Uma das acalmias nesse processo decorreu entre os séculos IV e XVII devido ao forte domínio e à preponderante intolerância da Igreja na cultura ocidental, em que o «Jesus Filho de Deus e duma Virgem Mãe» era simplesmente indiscutível. Mas as dúvidas e as críticas do «Jesus histórico» reavivaram-se com o Iluminismo filosófico a partir do séc. XVIII. Como vimos atrás, a ideia de que Jesus sobreviveu à crucificação e fingiu que ressuscitou já é muito antiga, e não apenas uma «descoberta» recente dos autores d’O Código Da Vinci e doutros textos. Um dos livros que causou mais sensação na sua época chama-se The Unknown Life of Jesus Christ e foi publicado em Chicago em 1894, da autoria do judeu russo Nicolas Notovitch. Nesse livro o autor descreve uma viagem que fez ao Oriente em 1870; tendo chegado à Índia em 1887, Notovitch visitou o famoso Templo Dourado de Amritsar; e num lugar chamado Mulbek encontrou um Lama que lhe relatou uma tradição de um certo Issa (ou Jesus) que tinha chegado à Índia em meados do séc. I e aí tinha pregado e feito curas. De investigação em investigação, Notovitch concluiu que Jesus conseguira sobreviver à crucificação e fugira para a India, onde foi reverenciado e morreu idoso…
Jesus, de facto, tem as costas largas, pois cada época redescobre um novo Jesus, ou uma nova faceta de Jesus, com base em autênticos ou supostos documentos, e com base também nas correlativas especulações. O Prof. Philip Jenkins, catedrático de História e Estudos Religiosos na Universidade de Pensilvânia, no seu livro Hidden Gospels (Oxford University Press, 2001), cuja leitura vivamente recomendo, descreve todas essas especulações ao longo dos tempos, chamando especialmente a atenção para a descoberta de manuscritos antigos, de tipo mais ou menos gnóstico e classificados pela ortodoxia romana como apócrifos, desde o famoso tratado Pistis Sophia, do século II, encontrado em 1773 num alfarrabista de Londres, passando pelos códices coptas desenterrados num primitivo cemitério cristão, no Egipto, em 1896 (Berolinensis Gnosticus), e outros, até aos mais recentes, como a biblioteca gnóstica de Nag Hammadi (1945) ou o ainda mais recente Evangelho de Judas (1978).
Em vários destes textos já se abordava o aspecto da preponderância de Maria Madalena na vida de Jesus, como discípula predilecta e privilegiada: Pistis Sophia, Evangelho de Maria (Madalena), Evangelho de Filipe, Evangelho de Tomé, etc. — sendo que este último também refere Salomé com um papel semelhante.
Finalmente, em 1982 foi publicado um livro que também levantou celeuma na época (já lá vão 25 anos!), The Holy Blood and the Holy Grail («O Santo Graal e a Linhagem Sagrada»), de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, onde os autores «demonstram» que Jesus sobreviveu à crucificação, casou com Maria Madalena, teve filhos, emigrou para França e a sua descendência deu origem à dinastia Merovíngia… com todos os plots secretos que daí derivaram, desde os cavaleiros templários, passando pela heresia cátara, mais os bastidores do fantasioso «Prieuré de Sion» e seus esforços para restaurar o poder político dos descendentes Merovíngios, depostos há mais de 1300 anos. Ora foi precisamente nos argumentos deste livro de quase 500 páginas que o autor d’ O Código Da Vinci se inspirou quase palavra por palavra, somente lhe entretecendo uma empolgante intriga policial.
Mas… será de se levar a sério?
Os «documentos históricos» utilizados pelo autor do Código são sobretudo os escritos não-canónicos utilizados por certas comunidades jesuânicas nos três ou quatro primeiros séculos do Cristianismo, e, em si, não são mais nem menos «históricos» do que os textos canónicos do Novo Testamento, que se compõem de quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas, João), um livro de actos, várias epístolas de Paulo e outros apóstolos — autênticas ou falsamente atribuidas —, e um apocalipse.
Que no século I já circulavam muitos evangelhos ou «histórias» de Jesus, e não apenas os quatro que ficaram na Bíblia, é um facto que o próprio evangelho de Lucas reconhece e testemunha logo nas suas primeiras linhas (Lucas 1, 1-3). Para além do famoso e primitivo Evangelho Q, reconstituído pacientemente pelos estudiosos bíblicos após anos e anos de trabalho, temos conhecimento de que eram utilizados muitíssimos outros, dezenas ou mais, aceites e venerados em diferentes ekklêsiai e/ou círculos iniciáticos cristãos. A maior parte deles perdeu-se, ou deles só restam escassos fragmentos; o conhecimento que deles temos deriva não só das referências (nem sempre fidedignas) feitas pelos autores eclesiásticos da Patrística, mas também pela descoberta de manuscritos, encontrados em velhas bibliotecas, em alfarrabistas, em cemitérios, em terrenos escavados ou em mosteiros, sobretudo a partir do séc. XVIII, como referi atrás, e principalmente pela descoberta arqueológica da preciosa biblioteca gnóstica de Nag Hammadi, ocorrida em finais de 1945 no Alto Egipto, e que permitiu que se recuperassem 53 importantes tratados gnósticos dos séculos II a IV.
Seja como for, teremos sempre de levar em conta que tanto esses textos «apócrifos» como os evangelhos canónicos não tinham uma preocupação historicista, mas uma intenção mistérica e iniciática, ou então teológica — eram na verdade rituais iniciáticos e/ou encenações litúrgicas que têm de ser interpretados à luz dos princípios da Esoterologia Bíblica ou da Teologia e não da historiografia convencional. Por isso é preciso o maior cuidado quando se pretende tomar à letra o que neles se contém, pois mais importante do que o sentido literal, é o sentido espiritual, como dizia Paulo: «A letra mata, porém o espírito é que vivifica» (2 Coríntios 3, 6).
Vejamos um dos casos que mais especulações tem provocado, o da preferência dada por Jesus à discípula Maria Madalena, tal como vem relatada nalguns dos apócrifos, como os citados Pistis Sophia, o Evangelho de Filipe ou ainda o Evangelho de Maria (Madalena), já para não falar nos canónicos, nos quais Maria Madalena é sempre a primeira, ou das primeiras, a beneficiar da aparição do Cristo ressuscitado.
No Evangelho de Filipe, que faz parte dos códices encontrados em Nag Hammadi, há uma descrição dos principais ritos iniciáticos da respectiva Escola de Mistérios: o próprio autor do evangelho chama «mistérios» a esses ritos e signos simbólicos, que ele enumera e descreve, ainda que nem sempre de forma clara: baptismo, unção, eucaristia, redenção e câmara nupcial («matrimónio místico» ou «boda alquímica» do Pneuma-Espírito-Superior com a Psique-Corpo Anímico- Inferior).
A instrução iniciática era feita «de boca a boca», ou seja, por transmissão oral secreta de Mestre a discípulo, por isso há tantas referências simbólicas ao «beijo» em quanto forma de transmissão de conhecimento secreto nos variados textos gnósticos, nos quais se diz, por exemplo, que «os Iniciados engravidam mediante um beijo, e dão à luz» (Ev. de Filipe), ou a iniciação gnóstica simbolizada pelo beijo na boca que Jesus dá a Tiago, revelando-lhe «coisas que os céus não conheceram» (II Apoc. de Tiago), ou ainda, e de acordo com o mesmo princípio, os «beijos na boca» que Jesus dava a Maria Madalena registados no evangelho de Filipe.
Por conseguinte, o «casamento» de Jesus com Maria Madalena, e o simbolismo de ela ter «engravidado» por obra de um «beijo» do Mestre, ficando «prenhe» de Gnose, é um facto místico e esotérico perfeitamente enquadrável no simbolismo das correntes gnósticas e esotéricas do cristianismo primitivo, e respectivos círculos iniciáticos (Matrimónio Místico do Eu superior com o Eu inferior), e não um evento cruamente biológico e historicista tal como tem dado azo a inúmeras e fantasiosas especulações. Aliás, os próprios gnósticos dos séculos II e III em cujos textos Dan Brown diz ter-se inspirado, ficariam horrorizados com a blasfémia de se pensar sequer que o simbolismo iniciático da Gnose pudesse ser entendido como um casamento físico entre o Mestre e algumas das suas discípulas…
3) O esoterólogo Pierre Riffard, alude em seu livro “O Esoterismo: uma antologia” ao fato da Igreja Católica não ser contrária ao Esoterismo em si, mas ser explicitamente contra alguns esoterismos em particular, considerados anti-católicos (rosacruz, maçonaria, teosofia, antroposofia, etc.). Pressupondo estar correta a asserção riffardiana, quais fatores ajudariam a compreender a ambiguidade desta relação Igreja-Esoterismo, na opinião do Senhor?
Antes de mais nada, convém deixar bem claro que a generalidade dos teólogos cristãos (católicos ou protestantes) consideram que a abordagem esotérica da Bíblia é uma abordagem ilegítima, e que qualquer método ou sistema esotérico de interpretar a Escritura contraria frontalmente as próprias formas e conteúdos bíblicos porque, segundo a teologia da Igreja, não há nada de secreto ou oculto nos versículos bíblicos, e muito menos nos ensinamentos de Jesus como ele próprio afirma: «Eu falei francamente [gr. parrêsiai, abertamente] ao mundo, eu sempre ensinei na sinagoga e no templo onde concorrem todos os judeus, e no oculto [gr. en kryptôi] não falei nada» (João 18, 20).
Para a teologia católica romana (e também protestante) a busca de significados espirituais profundos ou esotéricos nas passagens bíblicas constitui uma hermenêutica abusiva, e por isso mesmo não surpreende — segundo os teólogos — que os diversos intérpretes esotéricos apresentem contradições irreconciliáveis nas suas interpretações de específicos versículos bíblicos, visto que nenhuma autoridade individual, seja a dos diferentes esoteristas ou outros quaisquer intérpretes, se pode sobrepor à autoridade da própria Escritura, tal como explicita o teólogo Ron Rhodes no seu artigo “Esotericism and Biblical Interpretation” (Christian Research Journal, Winter 1992, p. 28).
Tanto quanto julguei entender, o argumento de Pierre A. Riffard incide mais sobre a forma enviesada como a Igreja em certos casos lida com as situações incómodas, e Riffard estabelece, e bem, uma distinção entre o mistério e o segredo: a Igreja aceita o mistério, mas rejeita o segredo, tal como ele diz no seu livro: «…o esoterismo não é fustigado [pela Igreja] senão de forma indirecta […]. Que vemos nós? O Index librorum prohibitorum contempla a heresia, a irreligião, a superstição, o erotismo… mas não o esoterismo. Quando a Igreja condena a maçonaria, não condena o seu esoterismo, uma vez que a Igreja apenas conhece uma maçonaria exotérica, ela não condena o mistério, mas sim o segredo, como o segredo de qualquer associação clandestina» (L’ésotérisme: Qu’est-ce que l’ésotérisme? Anthologie de l’ésotérisme occidental, p. 24). Nem pode ser de outro modo, visto que a interpretação verdadeira da Escritura é uma prerrogativa e um magistério que a Igreja recebeu dos apóstolos (por isso a Igreja se auto-denomina apostólica) e deles não se pode desviar; qualquer outra interpretação, nomeadamente de tipo esotérico, será sempre condenada pela Igreja como ilegítima. Um dos maiores teólogos portugueses, o professor catedrático Joaquim Carreira das Neves, dedica vários textos seus, importantes, a este assunto, por exemplo no seu livro Jesus de Nazaré, Quem És Tu? (todo o capítulo: «Jesus foi um esotérico?», pp. 242-249), ou o artigo «A Bíblia como História frente ao Esoterismo» (na revista Didaskalia, XX, 1, 1990, pp. 167-188), onde desenvolve claramente a posição da Igreja rejeitando em absoluto o carácter esotérico dos conteúdos bíblicos bem como as interpretações esotéricas que os vários esoteristas têm feito deles ao longo dos séculos.
Pese embora as objecções eclesiais que os teólogos possam argüir contra o Esoterismo bíblico, argumentando que «a Sagrada Escritura é uma literatura religiosa funcional», e não oculta ou de significados profundos, e que «Jesus não era um apocalíptico que falasse por enigmas» (Jesus de Nazaré, Quem És Tu?, pp. 243 e 245), a verdade é que tanto a Escritura judaica (Antigo Testamento) como os textos do Novo Testamento contêm inúmeras passagens susceptíveis de diferentes níveis de leitura: a «leitura literal», a «leitura teológica», a «leitura esotérica», etc. Como é óbvio, estas diferentes leituras conduzem a diferentes hermenêuticas; já as escolas rabínicas dos antigos judeus referiam os aspectos misteriosos, secretos e esotéricos de um certo número de livros da Escritura, proibindo mesmo o acesso a alguns deles (Génesis 1, Ezequiel 1 e 40-48, Cântico dos Cânticos, etc.), só os autorizando a adultos devidamente preparados e instruídos. Por sua vez o Targum, enquanto interpretação feita no Templo das leituras litúrgicas da Escritura hebraica, visava sobretudo trazer à luz o sentido oculto, ou esotérico, reconhecidamente existente na mesma Escritura.
Na hermenêutica cristã primitiva distinguiu-se o gigantesco Orígenes (sécs. II-III): ele considerava que a Bíblia fala uma linguagem de símbolos e que é crucial desvendar o «mistério último» contido cripticamente na Escritura. Foi figura preponderante na Escola de Alexandria, que preconizava o método alegórico para a hermenêutica bíblica, no que se opunha à Escola de Antioquia, que defendia o método histórico e literal. Escusado será dizer que foi esta última que venceu e preponderou na chamada «Grande Igreja», oficializada e imposta para todo o império romano por Constantino e sobretudo por Teodósio, no século IV. Em consequência, as teses de Orígenes foram condenadas no II Concílio de Constantinopla do séc. VI, que homologou os famosos «XV Anátemas Contra Orígenes».
Antes de concluir este item, vale a pena chamar a atenção para o seguinte:
Dos quatro evangelhos canónicos, o de Marcos é o mais antigo, o mais próximo das primitivas comunidades, ou ekklêsiai, iniciáticas cristãs e portanto o mais esotérico — sobretudo se considerarmos o fragmento desse evangelho descoberto pelo Prof. Morton Smith em 1958 no mosteiro cristão bizantino de Mar Saba, em Israel, e divulgado em dois livros seus, em 1966 e 1973. Para além duma inequívoca cerimónia iniciática cristã referida nesse fragmento, o próprio evangelho de Marcos tal como chegou até nós, nas Bíblias correntes, não deixa lugar a dúvidas quanto ao esoterismo dos ensinamentos de Jesus: Marcos insiste na ideia de que existia um círculo iniciáticio interno (os Doze) que podia ter acesso ao conhecimento profundo, em contraste com as multidões ( = «os de fora»: gr. ‘oi exô, ou seja, os profanos) às quais só se poderia falar em parábolas e comparações: «E dizia-lhes [aos discípulos]: A vós, foi-vos dado [conhecer] o mistério do Reino de Deus, mas aos de fora tudo se dá em parábolas» (Marcos 4, 11); «E com muitas parábolas semelhantes lhes falava a palavra [às multidões], segundo podiam entender; mas privadamente [gr. kat’idian] aos discípulos explicava tudo» (Marcos 4, 33-34). Muitos outros exemplos se poderiam aduzir, limitar-me-ei a apresentar mais um de carácter protocabalístico (Marcos 8, 16-21), e tem a ver com os números de pães e peixes, e o seu simbolismo numerológico, a propósito do milagre da multiplicação dos mesmos: o próprio Cristo chama a atenção para esses números, e obriga os discípulos a repeti-los: 5, 7 e 12, dizendo: «A vossa mente não alcança, nem entendeis?» (Marcos 8, 17), e perante a obtusidade deles surpreende-se como é possível não verem o mistério oculto nessa numerologia, e repete: «Ainda não entendeis?» (Marcos 8, 21).
Ora, isto vem a propósito duma frase do evangelho de João, citada mais atrás, proferida por Jesus e utilizada pela Igreja para tentar provar que Jesus não era um esotérico: «Eu falei francamente ao mundo, eu sempre ensinei na sinagoga e no templo onde concorrem todos os judeus, e no oculto não falei nada» (João 18, 20). Esta frase é dita quando Jesus é preso pelos guardas do Templo a fim de ir a julgamento.
O evangelho de Marcos, muito anterior ao de João, refere a forma textual primitiva dessa frase: «Todos os dias estava no templo convosco ensinando, e não me prendestes» (Marcos 14, 49). O evangelho de Marcos terá sido redigido por volta do ano 70 d.C., ao passo que a redacção final de João é datável de perto do ano 100 d.C. O redactor tardio de João acrescentou «falei francamente, ou abertamente [gr. parrêsiai]», e insiste que nada disse «em oculto [gr. en kryptôi]». Trata-se obviamente dum acrescento proto-ortodoxo, de tipo eclesiástico, para acentuar o carácter «aberto» da doutrina, em contraste com o carácter oculto das outras comunidades iniciáticas, gnósticas ou não-gnósticas: a partir da segunda metade do século I, e sobretudo na viragem do século I para o século II, e seguintes, acentuou-se a tendência proto-ortodoxa que compreendeu que a melhor maneira de expandir a doutrina era «exoterizá-la», torná-la aberta e sem segredos e ao alcance de todos, e os «mistérios» deixaram de ser iniciáticos para serem apenas verdades reveladas que ultrapassam os poderes e as capacidades da razão natural — como o mistério da Imaculada Concepção, o mistério da Ressurreição, o mistério da Santíssima Trindade ou o mistério da Transubstanciação, mistérios esses que só podem ser aceites pela fé, e não entendidos pela gnose (conhecimento). Com isto desaparecia a exclusividade elitista dos círculos iniciáticos e gnósticos, que implicavam preparação, estudo, conhecimento, iniciação e segredo, acessíveis apenas a uns poucos, em contraste com a abertura a todos, mesmo os de fracas capacidades, proposta pela corrente proto-ortodoxa, porque aquilo que os crentes não entendessem, bastava que o aceitassem pela fé cega.
Podemos surpreender-nos que o evangelho de João, tão prezado pelas mais variadas correntes esotéricas e ocultistas tanto antigas como actuais, esteja inquinado com algumas passagens nitidamente anti-esotéricas, como esta e outras que pretendem pôr em causa, por exemplo, a autoridade do misterioso evangelho de Tomé: na famosa aparição aos discípulos, depois da Ressurreição, em João 20, 19-23, estão todos presentes menos Tomé, de modo que, quando Jesus sopra sobre eles e diz: «Recebei o Espírito Santo», conferindo-lhes o poder de perdoar os pecados, Tomé fica excluído dessa efusão mistérica e pneumática, o que obviamente tem por fim desacreditar a autoridade do respectivo círculo iniciático (Tomé não recebeu a efusão do Espírito Santo, por isso a sua comunidade e o seu evangelho não são válidos!)
A verdade é que o evangelho de João, nas cópias manuscritas mais antigas que chegaram até nós (aliás como os outros textos bíblicos), não oferece garantias de pureza original pois as mãos de muitos escribas e copistas passaram por ele, e hoje é impossível, mesmo com as mais sofisticadas técnicas de investigação e de «crítica textual», ter uma ideia sequer aproximada de como seria o primeiro texto autógrafo donde foram feitas as sucessivas cópias ao longo dos séculos.
Já para não falar no problema da autoria dos evangelhos que só foi atribuída nos fins do século II d.C. pelo apologeta proto-ortodoxo Ireneu de Lião, que no entanto reconhecia (Adversus Haereses III, 11, 9) que certos grupos cristãos, que ele qualifica como «heréticos», não aceitavam a autoria joanina do Quarto Evangelho. Hoje existe um razoável consenso entre os especialistas bíblicos que o evangelho dito de João passou por vários estágios de transmissão do texto, com, pelo menos, três autores: (1) O autor do «evangelho dos sinais [gr. sêmeia]», em que os sete «milagres» registados em João fazem parte dum primitivo texto onde os «milagres» são designados como «sinais» certificadores da fé; (2) Um «evangelista» que interpreta os «sinais» como indicadores de uma revelação do Deus-Pai invisível, feita por intermédio de Jesus Cristo; (3) Um «redactor» eclesiástico, final, que acrescenta a proclamação do iminente fim do mundo, dos sacramentos e duma ética que coloca os cristãos como a elite entre os homens bons. Segundo certos biblistas, entre a primeira e a terceira fase decorreu um lapso de tempo de, pelo menos, 50 anos, ou seja, os últimos redactores e copistas tiveram tempo e oportunidade para «ajeitar» o texto a uma cristologia cada vez mais antignóstica, bem como à emergência crescente de Pedro como apóstolo principal.
4) Ainda sobre Igreja e Esoterismo, desejo levantar uma questão específica, a qual pode se desdobrar em outros aspectos: o chamado “docetismo” gnóstico, mencionado no seu livro “Esoterismo da Bíblia". Conforme pude entender — e se estiver errado, me corrija —, esta teoria tinha duas variantes. Numa delas, o homem Jesus recebe Cristo (Espírito cósmico) no batismo do Jordão; no momento dramático da crucificação, Cristo abandona Jesus, e deixa este morrer sozinho. Noutra versão, Cristo na Terra apenas se valeu de um corpo “fantasma”, e por conseguinte, sua morte na cruz foi apenas de “aparência”… Semelhante teoria revela muito do dualismo gnóstico —ie, sua aversão à matéria—, e foi considerada “herética” pela Igreja de Roma. O senhor poderia nos explicar melhor o que era o tal “docetismo”?
Antes de mais convém esclarecer que ao contrário da opinião convencional acerca de «ortodoxia» e «heresia» no cristianismo primitivo, opinião essa que durante muito tempo transmitiu a falsa noção de que haveria um tronco central do cristianismo («proto-ortodoxo» e mais tarde «ortodoxo), derivado dos ensinamentos de Jesus e disseminado sem desvios pelos apóstolos, do qual divergiriam diversas tendências aberrantes e sectárias que por isso mesmo se chamam «heresias» — a realidade histórica é bem diferente. O primeiro a desferir um golpe demolidor nessa visão simplista foi Walter Bauer (1877-1960), um investigador do cristianismo primitivo de grande erudição, que em 1934 publicou uma importante obra de referência, em língua alemã, intitulada (na tradução inglesa) Orthodoxy and Heresy in Earliest Christianity. Através do estudo dos elementos históricos disponíveis Bauer concluiu que a corrente que veio a ser conhecida como «ortodoxia» era apenas uma, e nem sequer a mais significativa, dentre as inumeráveis formas de cristianismo nos primeiros séculos.
Na realidade, dos ensinamentos e dos actos de Jesus saiu directamente um leque de formas divergentes que deram origem a um não pequeno número de linhas de espiritualidade, das quais nenhuma delas se poderia dizer que representasse uma clara maioria de crentes face a todas as outras: tão-pouco se poderia dizer que a chamada «ortodoxia» existisse nos séculos II e III — quando muito poder-se-á falar em «proto-ortodoxia». Aliás, em muitas das regiões por onde se espalhou o cristianismo, as comunidades cristãs maioritárias e dominantes eram constituídas por elementos que perfilhavam concepções cristológicas — gnósticas ou não-gnósticas — que mais tarde viriam a ser consideradas como «heréticas». Por muito estranho que isto nos pareça (então Jesus não é um só, e os seus ensinamentos não são os que vêm na Bíblia?), a verdade é que os próprios discípulos não compreendiam Jesus, como vemos em tantas passagens dos evangelhos, sobretudo no de Marcos, onde se insiste que os discípulos interpretam de diferentes maneiras os discursos e os actos do Mestre, ou nem sequer os entendem, tal como o exemplo que citei na resposta à pergunta anterior (Marcos 8, 16-21).
Não surpreende, por conseguinte, que essas diferenças de interpretação dessem imediatamente origem a escolas e círculos iniciáticos com diferentes concepções cristológicas. Uns diziam que havia um só Deus, e que Cristo era a humanização d’Ele na terra; outros diziam que havia dois deuses, o Deus supremo e o Demiurgo, criador desastrado do mundo e da matéria, e que Cristo era um enviado do primeiro para resgatar os erros do segundo; outros diziam que havia dois deuses, Deus-Pai e Deus-Filho, porque consideravam a divindade de Jesus à parte; outros diziam que Jesus era completamente humano e não divino; outros diziam que Jesus era completamente divino e não humano; uns achavam que Jesus tinha vindo cumprir as profecias judaicas, e completar a lei; outros repudiavam a lei judaica, e que Cristo inaugurara uma nova era, a do amor, contra o rigor da lei, e rejeitavam o Antigo Testamento na sua totalidade; uns acreditavam que Jesus nascera duma virgem por obra do Espírito divino; outros defendiam que Jesus era um ser humano, nascido naturalmente de José e de Maria, e escolhido por Deus para desempenhar uma missão; etc. etc.
O professor catedrático Antonio Piñero da Universidade Complutense de Madrid, reputado especialista de cristianismo primitivo, de gnosticismo e de línguas antigas, numa conferência sobre este assunto que proferiu o ano passado em Lisboa, referiu pelo menos doze concepções diferentes, algumas antagónicas, reinantes nas mais distintas comunidades cristãs primitivas e todas em pé de igualdade, não se podendo dizer que uma fosse mais «verdadeira» ou mais «importante» que as outras — o que importa realçar é que todas essas diferentes escolas e correntes cristãs se reclamavam de ter a sua origem nos ensinamentos deste ou daquele apóstolo, como por exemplo o gnóstico Valentim que se dizia discípulo de Theudas que por sua vez fora discípulo de Paulo, ou os que se diziam seguidores e discípulos de Tiago, de Pedro, de Tomé, etc. considerando-se ao mesmo nível de autoridade e de apostolicidade da corrente proto-ortodoxa que mais tarde daria origem à chamada «Grande Igreja».
É neste contexto que surgem designações cristológicas como «docetismo», «adopcionismo», «separacionismo», «patripassionismo», «subordinacionismo», etc., designações que foram sendo atribuídas às diversas concepções cristológicas que resumi mais atrás.
A pergunta refere dois aspectos distintos de alguns dos vários movimentos gnósticos: um deles, o «adopcionismo», ensina que Jesus foi um ser humano excepcional filho natural de José e de Maria, que pelas suas inúmeras virtudes mereceu ser «adoptado» por Deus-Pai como seu Filho, tornando-se um instrumento do divino Cristo-Logos; uma das variantes dessa doutrina diz-nos que essa «adopção» teria ocorrido no momento do Baptismo, com a descida da Pomba do Espírito Santo sobre Jesus, ao passo que outra refere que essa «adopção» somente ocorreu no momento da morte na cruz, quando o espírito se libertou, a sua missão se cumpriu e Deus-Pai o divinizou.
O «docetismo» propriamente dito pode também apresentar diversas variantes, por exemplo a do gnóstico Basilides ou a do gnóstico Cerinthus. De acordo com o primeiro, o Cristo-Logos sendo divino, eterno e perfeito, não poderia conspurcar-se com a sua involucração num corpo de carne, visto que a matéria é impura e má por natureza. Assim, o Cristo era um «poder incorpóreo» (lat. virtus incorporalis) e o seu corpo era apenas aparencial, parecia de carne mas na verdade era algo de fantasmático que devido ao seu grande poder crístico podia assumir aparência de solidez, comer, beber, falar às multidões, tocar nas pessoas e ser tocado, etc. — mas não passava tudo de aparência: a palavra «docetismo» quer dizer isso mesmo, vem do verbo grego dokeîn, que significa parecer ou aparecer. No momento da crucificação, segundo Basilides, quem morreu foi Simão de Cirene que carregou a cruz, e o Cristo foi visto pelo apóstolo Pedro (Apocalipse de Pedro, Biblioteca de Nag Hammadi) pairando sobre a cruz, em espírito e rindo com o engano dos seus executores. Por sua vez, e de acordo com Cerinthus, o Cristo-Logos incarnou no corpo do Jesus histórico no momento do Baptismo; na crucificação, a Espiritual Força Crística abandonou o corpo de Jesus de Nazaré, e foi este quem sofreu e morreu, e por isso exclamou: «Por que me abandonaste?»
Em suma, tudo isto mais uma vez nos confirma as dificuldades com que depara o estudioso do cristianismo primitivo que queira apurar da «verdade» ou da «falsidade» de todas estas correntes, incluso a proto-ortodoxa. Por isso os investigadores esoterólogos procedem cautelosamente e não preconceituam da veracidade ou falsidade das diversas correntes místicas e esotéricas, debruçando-se antes sobre as condições e circunstâncias sócio-históricas que levaram ao seu surgimento, desenvolvimento e desaparição — ou, em alternativa, preponderância e triunfo histórico, como por exemplo o fascinante estudo que tenta explicar por que foi que a corrente proto-ortodoxa, organizada a pouco e pouco de forma patriarcal e autoritária, à semelhança da hierarquização rigorosa e implacável do Império romano, conseguiu finalmente vingar e ser aceite pelo imperador Constantino que, em Roma, disponibilizou enormes recursos financeiros aos cristãos, ou melhor, à chamada «Grande Igreja», que facilmente se impôs, com esses meios, e reescreveu a História dando desta corrente uma visão maioritária (Eusébio de Cesareia, Historia Ecclesiastica, sécs. III-IV), e fazendo com que os escritos que apoiassem outras visões ou outras correntes de espiritualidade cristã fossem sistematicamente destruídos.
5) Se possível, complemento a pergunta acima com outra: o rosacruz Max Heindel, autor estimado pelo senhor, aceita a distinção entre Jesus e Cristo, todavia, ao mesmo tempo, enfatiza a morte real e física do Cristo-Jesus na cruz, no chamado “Mistério do Gólgota”; salvo engano meu, a visão de Heindel não é —de certa maneira— uma “conciliação” entre os pontos de vista do gnosticismo e da teologia cristã tradicional?
Realmente, o Rosacrucismo tem bastantes raízes gnósticas, e quando se estudam e comparam os antigos movimentos gnósticos com os princípios do esoterismo Rosacruz, encontramos muitos pontos de contacto, sobretudo em Max Heindel (1865-1919) que consegue uma excelente harmonização entre o princípio da Fé (cristianismo ortodoxo), e o princípio da Gnose ( = conhecimento/intelecto espiritual, princípio dos gnósticos). Em vez de opor um ao outro, como faziam e fazem os acérrimos defensores da Igreja, por um lado, e os ocultismos teosofistas, por outro, para os quais a Salvação ou está exclusivamente na Fé ou exclusivamente na Gnose (para estes últimos a ignorância [gr. agnoia] é o pior dos pecados) — Max Heindel salienta (e quanto a mim, bem), que ambos os princípios se complementam e se harmonizam, porquanto o ideal do Homem Superior é unir o coração (Fé) e a mente (Gnose), em vez de ficar apenas na devoção mística (Fé—Igreja) ou nas iniciações ocultas (Gnose—Escolas de ocultismo).
Outros autores importantes, para além de Heindel, também perfilham este princípio de harmonização: por exemplo o hermetista suíço Oswald Wirth (1860-1943), contemporâneo de Max Heindel e discípulo do famoso ocultista Stanislas de Guaïta, explica que o ocultista desenvolve a sua individualidade através da exaltação do Enxofre e a sua Iniciação é masculina ou dórica (Marte), ao passo que o místico conforma a sua personalidade aos princípios da Iniciação feminina ou jónica (Mercúrio segundo Wirth, Lua segundo Heindel). O ideal máximo a alcançar consiste portanto na superior harmonização de ambos os princípios no mesmo ser humano a que Wirth chama o Teurgo e Heindel o Adepto, e no qual se concilia a elevada actividade intelectual do ocultista com a elevada passividade cordial do místico. Uma explicação mais aprofundada e muito clara deste excelso ideal encontramo-la no capítulo XVII da obra de referência Conceito Rosacruz do Cosmo de Max Heindel, onde se descreve o percurso das correntes sexuais respectivamente no místico, no ocultista e no Adepto, e sua sublimação e transmutação espiritual neste último.
Para a corrente Rosacruz seguida por Max Heindel, há de facto diferença entre Jesus e Cristo: Jesus de Nazaré é um ser humano altamente evoluído, filho natural de José e de Maria, que se qualificou com um intenso preparo esotérico e espiritual para receber, no momento do Baptismo, o Espírito Cósmico do Cristo que utilizou o seu corpo durante o ministério de três anos, incluso na Crucificação, somente o abandonando no sepulcro. Por isso o sepulcro de Cristo Jesus foi encontrado vazio: as altíssimas vibrações do Cristo desintegraram os átomos do corpo morto de Jesus, o qual perdera com a morte o forte poder coesor de que necessitava para conter a elevadíssima espiritualidade vibratória do Cristo. Foi este, e não Jesus, quem apareceu em corpo espiritual «ressuscitado» aos discípulos, e ascendeu aos céus; Jesus, nos reinos invisíveis, tem desde então trabalhado com as Igrejas cristãs, sendo o génio protector da obra devocional das Igrejas mediante a qual a religião é fomentada e o ser humano é recuperado para Deus através da senda cordial (lat. cor, cordis, «coração») da Devoção.
Registe-se, por curiosidade, que a imagem de Jesus impressa no Sudário de Turim e cuja misteriosa formação tem constituído um quebra-cabeças para os cientistas das mais diversas especialidades, parece provir de uma radiação controlada emitida por um corpo que se desintegrou em átomos irradiando partículas de alta energia, o que justificaria, por um lado, o desaparecimento do corpo no sepulcro, e, por outro, a relutância da Igreja em aceitar a autenticidade do Sudário — se é autêntico, pode ser uma prova incómoda de que o Cristo não ressuscitou «em corpo de carne», mas em «corpo espiritual» ou «corpo etérico» como defendem os esoteristas…
6) Falando de Rosacruz e rosacrucianismo, autores como G. Lessing (tido como rosacruciano), M. Heindel e R. Steiner concebiam o cristianismo como um ideal de moralidade livre e superior. Mesmo R. Abellio, que não era a rigor um “rosacruz”, assumia em sua autobiografia “Sol invictus”, sob a influência de Steiner, uma visão do Cristo como o “portador da liberdade”, ao abalar a autoridade paternalista da Lei antiga. Na sua visão de Rosacruz, o senhor outrossim enxerga esta relação entre cristianismo rosacruz e uma ética da liberdade?
Sem dúvida, desde que não se confunda uma visão de liberdade com uma visão libertinária. Aliás esse ideal de liberdade, tipicamente cristão e revolucionário no contexto sócio-histórico em que surgiu (um ambiente impregnado, simultaneamente, de judaísmo patriarcalista e autoritário, e de paganismo greco-romano também patriarcalista e autoritário), já é muito patente nas cartas de Paulo — e refiro-me às sete epístolas consideradas autênticas pelos especialistas bíblicos: 1 Tessalonicenses, Gálatas, 1 e 2 Coríntios, Filémon, Filipenses e Romanos, compostas entre os anos 50 e 56 d.C. — as restantes são pseudónimas e escritas muito posteriormente, nalguns casos para tentar «corrigir» precisamente essa visão de liberdade típica de Paulo, visão convivial e igualitária para todos os seres humanos, homens ou mulheres, senhores ou escravos, desta ou daquela etnia ou cor de pele, e correlativa não sujeição às autoridades repressoras, como naquele tempo a dos Romanos.
Paulo sempre aceitou, tal como Jesus, a igualdade entre discípulos e discípulas, incluso cita o nome de mulheres diáconas e apóstolas (Febe: diácona, em Romanos 16, 1; Júnia: apóstola, em Romanos 16, 7), em contraste com a pseudopaulina e tardia epístola aos Efésios, por exemplo, em que se afirma que as mulheres têm de obedecer e submeter-se aos maridos (Efésios 5, 22-24), ou uma escandalosa interpolação na epístola aos Coríntios, em que se proíbe às mulheres de falarem nas igrejas e que perguntem aos maridos, em casa, se querem aprender alguma coisa (1 Coríntios 14, 34-35).
O cristianismo Rosacruz não pode deixar de perfilhar essa ética superior de liberdade e igualdade, aliás magnificamente expressa pelos dois maiores Iniciados cristãos, Paulo e João: «Não sabeis que sois templo de Deus, e o Espírito de Deus habita em vós?» (1 Coríntios 3, 16); «O Senhor é o Espírito, e onde está o Espírito do Senhor há liberdade» (2 Coríntios 3, 17); «Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará» (João 8, 32) — e isto é válido para homens ou mulheres, senhores ou escravos, judeus ou gentios, como acentua Paulo sem equívocos: «…já não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há varão nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus» (Gálatas 3, 28).
7) Para encerrar, li recentemente um artigo do R. Amadou, escrito em 1977, sob o influxo da contracultura dos anos 60-70; no artigo mencionado, o Amadou fazia uma crítica radical do que considerava versões burguesas e autocráticas de vida e de Esoterismo, postulando em contrapartida a iniciação esotérica como atualização da tradição, e como via da liberdade e efetivação do potencial humano. Trazendo um pouco daquela problemática para nosso contexto atual, e levando em conta os escritos do senhor sobre iniciação e Nova Era, pergunto: em sua visão, o Esoterismo, e portanto a iniciação, poderia contribuir para nossa sociedade não perder o sentido da vida espiritual, sem ao mesmo tempo ter de ficar presa às formas ultrapassadas de religião e espiritualidade? Se sim, como seria isso?
Não creio que seja fácil de alcançar, esse ideal, nas sociedades laicas dos tempos que correm. Não estou a ver o presidente Lula da Silva, ou o presidente Hugo Chávez, já para não falar do presidente Putin ou do presidente Bush, a tornarem-se altos iniciados para dirigirem os destinos dos respectivos povos de forma esotericamente espiritual. Já houve tempo em que isso não só foi possível, como nem podia ser de outra maneira: os faraós do antigo Egipto eram reis e sacerdotes, e os monarcas medievais eram reis pela «graça de Deus».
Entretanto os tempos mudaram com a evolução da História e da Humanidade. Por muito estranho que pareça o caminho da espiritualidade progressiva alcança-se apenas depois de ter batido no fundo da mais espessa materialidade — tal como diz um antigo provérbio alquímico: «Para que os ramos duma árvore alcancem o céu, é preciso que as suas raízes mergulhem no inferno». É isso que estamos a sofrer actualmente: o inferno da materialidade. Hoje os governantes (quaisquer governantes, mesmo o simples chefe de escritório ou o chefe de família) é um profano que na maioria dos casos se vangloria de ser ateu ou pelo menos agnóstico, e os que aparentam alguma forma de religiosidade, como os chefes de Estado de certas nações católicas ou protestantes, no fundo apenas seguem uma religiosidade exotérica não muito distante dum ritualismo meramente formal, sem a sacralidade de um sopro autenticamente divino — tal como, por muito que nos custe reconhecê-lo, as manifestações e os ritos cultuais, meramente externos, da própria Igreja e da maioria dos crentes. É este porém um passo indispensável, a materialidade tem de ser confrontada, compreendida, vencida e ultrapassada para podermos ascender, com uma nova super-consciência, à verdadeira e livre espiritualidade.
Podemos interrogar-nos, de facto, se o Esoterismo e a Iniciação (que pressupõe adesão profunda e consciente a uma Escola de Mistérios), poderia contribuir para que a nossa sociedade não perdesse o sentido da vida espiritual, tão degradado pelos formalismos de certo modo ultrapassados das religiões institucionalizadas. A isso só poderei responder que as religiões, com todas as suas insuficiências, são todavia meios indispensáveis para que a generalidade dos seres humanos «alcancem Deus», pois para a maioria é mais acessível o caminho devocional da Fé, mesmo cega e irracionalista, do que o caminho oculto da Gnose, que implica o entendimento e a abertura a uma racionalidade superior, a Razão do Logos. Quando o evangelho de João revela, nos seus primeiros versículos, que «No princípio era o Logos [ = palavra, discurso racional] […] e tudo foi feito por ele», revela do mesmo passo que a racionalidade (divina!) é uma característica do universo e de tudo quanto nele existe, incluso o ser humano: o Real é Racional. Mas, claro, esta racionalidade sublime, que não é rasteiramente racionalista como a da quotidiana razão instrumental, não é alcançável por quem quer, por isso a suprema Inteligência ordenadora do cosmo permite que o Homem se eleve ao nível da Divindade por duas vias: a senda da Evolução e a senda da Iniciação.
A senda da Evolução, a da humanidade comum, pode ser equiparada a um caminho ascensional circundando a montanha, em subida relativamente suave e sucessivas voltas espiraladas até atingir o Alfa-Ómega do cume. Claro que é um caminho longo e lento, talvez de muitos milhões de anos, e envolve todo o penoso percurso com seus muitos erros, tentativas, avanços e retrocessos — dos quais um dos passos inevitáveis é, precisamente, defrontar o desafio do materialismo e conseguir superá-lo e vencê-lo.
Por sua vez a senda da Iniciação é como subir a montanha por meios alpinistas, em que o candidato se iça na vertical, a pique e à força de pulso; é muito mais rápido mas requer um esforço e um preparo muitíssimo maiores, e são raros os que o empreendem, e muito mais raros ainda os que conseguem ir até ao fim sem desistir a meio.
Por isso não desanimemos! Se falharmos a plena realização da senda iniciática, sempre temos ao nosso dispor o caminho mais longo, mas não menos certo, da lenta evolução. Na certeza de que, quer num caso, quer no outro, o Alfa-Ómega do cume é o mesmo e estará sempre de braços amorosamente abertos, aguardando a nossa chegada ao topo e o regresso do filho pródigo à «Casa do Pai Misericordioso».
Antonio de Macedo
Abril 2007
Entrevista com Prof.António de Macedo: esoterologia bíblica, apócrifos, gnosticismo, hermenêutica bíblica, rosacrucianismo, iniciação, etc.
Concedida a Daniel Placido, em abril de 2007 (por email).
* António de Macedo, nascido em 1931, é professor de Esoterologia Bíblica na Universidade Nova de Lisboa, além de sociólogo, cineasta, escritor. etc.
Site: http://paginasesotericas.tripod.com
Livro "O Esoterismo da Bíblia":http://www.esquilo.com/
* Daniel Placido, nascido em 1983, é livreiro e pesquisador do Esoterismo.
site: www.polareditorial.com.br
1) O que é a Esoterologia Bíblica, afinal? Como o senhor chegou até a mesma? E como tem sido sua experiência de professor desta disciplina em uma universidade (não esquecendo a pouca simpatia do meio acadêmico tradicional quanto ao tema “Esoterismo”)?
A Esoterologia é uma ciência histórica e etno-sociológica que resultou de estudos sérios, em meios académicos, das correntes esotéricas e místicas, consideradas como realidades histórico-sociológicas, que, independentemente da sua presumível «verdade» ou «falsidade», interferiram e interferem nos respectivos contextos culturais e sociais, afectando formas e conteúdos literários, artísticos, filosóficos, educacionais, comportamentais, etc. O seu objecto de estudo é o esoterismo, definido como corpus de textos que constituem a expressão dum certo número de correntes espirituais, na história Ocidental desde a Idade Média até aos nossos dias, ligadas entre si por uma determinada «forma de pensamento» (correspondência, mediadores, transmutação, transmissão, etc.) que subjaz a essas correntes — e, de acordo com esta definição, a Esoterologia faz parte dos currículos académicos de certas universidades, como a Universidade de Paris (França), as Universidades de Amesterdão e Utrecht (Holanda), a Universidade da Califórnia (E.U.A.), etc., bem como numa secção do Departamento de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa (Portugal). Alguns dos mais importantes esoterólogos da actualidade são, por exemplo, os professores catedráticos Antoine Faivre (França), Wouter J. Hanegraaff (Holanda), Pierre A. Riffard (Mauritânia), Arthur Versluis (E.U.A.), Roland Edighoffer (França), Karen-Claire Voss (E.U.A, Turquia), etc.
Especificamente, a Esoterologia bíblica debruça-se sobre os aspectos referidos atrás mas respeitantes apenas aos contextos bíblicos, investigando não só os conteúdos de carácter esotérico que se podem detectar na própria Bíblia, mas também as interpretações esotéricas que historicamente têm sido levadas a efeito sobre os livros bíblicos pelos mais diversos autores e correntes místicas e espirituais ao longo dos séculos, até à actualidade.
Quanto à minha experiência como professor devo dizer que tem sido das mais gratificantes, quer pelo empenho que eu prório sinto, desde há muitos anos, por uma matéria que me é muita cara, quer pela excelente recepção e adesão dos alunos aos temas tratados.
2) Na sua obra “Esoterismo da Bíblia”, o senhor comenta em determinada passagem sobre as distorções e equívocos engendrados por livros populares como “O Código da Vinci” (agora também filme), porquanto este tipo de literatura amiúde parte de uma interpretação crua e literal dos documentos apócrifos, além de ignorar a fidelidade aos documentos históricos disponíveis, como é nítido na idéia do “casamento” de Jesus e Maria Madalena. O senhor poderia falar um pouco disso?
Os muitos leitores d’ O Código Da Vinci com quem tenho contactado exprimem naturalmente as mais diversas opiniões, umas pró e outras contra, mas notei que um grande número deles acreditava que a investigação do autor Dan Brown para o seu livro tinha sido conduzida com honestidade e seriedade com base em documentos históricos, e, por outro lado, que se estaria agora a assistir a um processo de desmistificação da imagem de Jesus Cristo.
Ora, na verdade o processo de «desmistificação» de Jesus Cristo não é de agora, nem sequer apenas do passado século XX: é coisa que tem vindo a durar há cerca de 2.000 anos… Os primeiros foram os judeus que nos textos rabínicos e talmúdicos dos séculos II e III d.C. puseram a circular a história de que Maria atraiçoara José com um soldado romano chamado Pandira ou Panthera, e portanto Jesus seria «filho de Panthera» (em hebr.: Yeshu ben Panthira). Daí a confusão dos evangelistas, diziam os judeus, que confundiram as palavras gregas huios pantherou (filho de Pantera) com huios parthenou (filho duma virgem). Existem diversos textos do Talmude da Babilónia, como por exemplo os tratados ‘Aboda Zara, o Talmud Shabbat, o Sanhedrin, etc. onde se insiste nessa atribuição do nascimento de Jesus ao adultério de Maria.
Por outro lado, os autores pagãos dos primeiros séculos do Cristianismo, disseram o pior possível de Jesus e dos cristãos, como os filósofos Celso (Discurso Verdadeiro), Porfírio (Contra Christianos), Plotino (Enneadas Livro II, tratado IX), todos do séc. III, ou ainda Juliano (Contra Galilaeos), do séc. IV. A principal acusação era que Jesus seria um baixo mágico e um charlatão e que a falsa ressurreição não foi mais que um embuste dos seus sequazes (para não lhes chamar discípulos…), e portanto ou morreu mesmo e alguém roubou o corpo, ou então não morreu, e fingiu que ressuscitou porque se curou das feridas (há casos, embora raros, documentados por historiadores greco-romanos, de crucificados que sobreviveram e curaram-se dos ferimentos). Outros limitavam-se a acusar os cristãos de terem fabricado um Jesus mítico à semelhança das divindades pagãs, tais como Osíris, que morreu e ressuscitou, Dionysos, que também morreu e ressuscitou, filho da virgem Semele e do Pai dos deuses, Zeus, ou ainda Mithra, muito venerado no mundo romano, também filho da deusa-virgem Anaita, conhecido mito solar celebrado a 25 de Dezembro — data que a Igreja aproveitou; etc. Já no século II d.C., os autores patrísticos Justino Mártir (Diálogo com Tryphon, Apologia I e Apologia II) e Ireneu de Lião (Adversus Haereses) tiveram de combater essas «calúnias».
Ao longo dos séculos o processo de denegrir e aviltar a imagem de Jesus, ou então ajeitá-la aos gostos e preferências de cada época, não é novo e tem passado por diversas fases. Uma das acalmias nesse processo decorreu entre os séculos IV e XVII devido ao forte domínio e à preponderante intolerância da Igreja na cultura ocidental, em que o «Jesus Filho de Deus e duma Virgem Mãe» era simplesmente indiscutível. Mas as dúvidas e as críticas do «Jesus histórico» reavivaram-se com o Iluminismo filosófico a partir do séc. XVIII. Como vimos atrás, a ideia de que Jesus sobreviveu à crucificação e fingiu que ressuscitou já é muito antiga, e não apenas uma «descoberta» recente dos autores d’O Código Da Vinci e doutros textos. Um dos livros que causou mais sensação na sua época chama-se The Unknown Life of Jesus Christ e foi publicado em Chicago em 1894, da autoria do judeu russo Nicolas Notovitch. Nesse livro o autor descreve uma viagem que fez ao Oriente em 1870; tendo chegado à Índia em 1887, Notovitch visitou o famoso Templo Dourado de Amritsar; e num lugar chamado Mulbek encontrou um Lama que lhe relatou uma tradição de um certo Issa (ou Jesus) que tinha chegado à Índia em meados do séc. I e aí tinha pregado e feito curas. De investigação em investigação, Notovitch concluiu que Jesus conseguira sobreviver à crucificação e fugira para a India, onde foi reverenciado e morreu idoso…
Jesus, de facto, tem as costas largas, pois cada época redescobre um novo Jesus, ou uma nova faceta de Jesus, com base em autênticos ou supostos documentos, e com base também nas correlativas especulações. O Prof. Philip Jenkins, catedrático de História e Estudos Religiosos na Universidade de Pensilvânia, no seu livro Hidden Gospels (Oxford University Press, 2001), cuja leitura vivamente recomendo, descreve todas essas especulações ao longo dos tempos, chamando especialmente a atenção para a descoberta de manuscritos antigos, de tipo mais ou menos gnóstico e classificados pela ortodoxia romana como apócrifos, desde o famoso tratado Pistis Sophia, do século II, encontrado em 1773 num alfarrabista de Londres, passando pelos códices coptas desenterrados num primitivo cemitério cristão, no Egipto, em 1896 (Berolinensis Gnosticus), e outros, até aos mais recentes, como a biblioteca gnóstica de Nag Hammadi (1945) ou o ainda mais recente Evangelho de Judas (1978).
Em vários destes textos já se abordava o aspecto da preponderância de Maria Madalena na vida de Jesus, como discípula predilecta e privilegiada: Pistis Sophia, Evangelho de Maria (Madalena), Evangelho de Filipe, Evangelho de Tomé, etc. — sendo que este último também refere Salomé com um papel semelhante.
Finalmente, em 1982 foi publicado um livro que também levantou celeuma na época (já lá vão 25 anos!), The Holy Blood and the Holy Grail («O Santo Graal e a Linhagem Sagrada»), de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, onde os autores «demonstram» que Jesus sobreviveu à crucificação, casou com Maria Madalena, teve filhos, emigrou para França e a sua descendência deu origem à dinastia Merovíngia… com todos os plots secretos que daí derivaram, desde os cavaleiros templários, passando pela heresia cátara, mais os bastidores do fantasioso «Prieuré de Sion» e seus esforços para restaurar o poder político dos descendentes Merovíngios, depostos há mais de 1300 anos. Ora foi precisamente nos argumentos deste livro de quase 500 páginas que o autor d’ O Código Da Vinci se inspirou quase palavra por palavra, somente lhe entretecendo uma empolgante intriga policial.
Mas… será de se levar a sério?
Os «documentos históricos» utilizados pelo autor do Código são sobretudo os escritos não-canónicos utilizados por certas comunidades jesuânicas nos três ou quatro primeiros séculos do Cristianismo, e, em si, não são mais nem menos «históricos» do que os textos canónicos do Novo Testamento, que se compõem de quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas, João), um livro de actos, várias epístolas de Paulo e outros apóstolos — autênticas ou falsamente atribuidas —, e um apocalipse.
Que no século I já circulavam muitos evangelhos ou «histórias» de Jesus, e não apenas os quatro que ficaram na Bíblia, é um facto que o próprio evangelho de Lucas reconhece e testemunha logo nas suas primeiras linhas (Lucas 1, 1-3). Para além do famoso e primitivo Evangelho Q, reconstituído pacientemente pelos estudiosos bíblicos após anos e anos de trabalho, temos conhecimento de que eram utilizados muitíssimos outros, dezenas ou mais, aceites e venerados em diferentes ekklêsiai e/ou círculos iniciáticos cristãos. A maior parte deles perdeu-se, ou deles só restam escassos fragmentos; o conhecimento que deles temos deriva não só das referências (nem sempre fidedignas) feitas pelos autores eclesiásticos da Patrística, mas também pela descoberta de manuscritos, encontrados em velhas bibliotecas, em alfarrabistas, em cemitérios, em terrenos escavados ou em mosteiros, sobretudo a partir do séc. XVIII, como referi atrás, e principalmente pela descoberta arqueológica da preciosa biblioteca gnóstica de Nag Hammadi, ocorrida em finais de 1945 no Alto Egipto, e que permitiu que se recuperassem 53 importantes tratados gnósticos dos séculos II a IV.
Seja como for, teremos sempre de levar em conta que tanto esses textos «apócrifos» como os evangelhos canónicos não tinham uma preocupação historicista, mas uma intenção mistérica e iniciática, ou então teológica — eram na verdade rituais iniciáticos e/ou encenações litúrgicas que têm de ser interpretados à luz dos princípios da Esoterologia Bíblica ou da Teologia e não da historiografia convencional. Por isso é preciso o maior cuidado quando se pretende tomar à letra o que neles se contém, pois mais importante do que o sentido literal, é o sentido espiritual, como dizia Paulo: «A letra mata, porém o espírito é que vivifica» (2 Coríntios 3, 6).
Vejamos um dos casos que mais especulações tem provocado, o da preferência dada por Jesus à discípula Maria Madalena, tal como vem relatada nalguns dos apócrifos, como os citados Pistis Sophia, o Evangelho de Filipe ou ainda o Evangelho de Maria (Madalena), já para não falar nos canónicos, nos quais Maria Madalena é sempre a primeira, ou das primeiras, a beneficiar da aparição do Cristo ressuscitado.
No Evangelho de Filipe, que faz parte dos códices encontrados em Nag Hammadi, há uma descrição dos principais ritos iniciáticos da respectiva Escola de Mistérios: o próprio autor do evangelho chama «mistérios» a esses ritos e signos simbólicos, que ele enumera e descreve, ainda que nem sempre de forma clara: baptismo, unção, eucaristia, redenção e câmara nupcial («matrimónio místico» ou «boda alquímica» do Pneuma-Espírito-Superior com a Psique-Corpo Anímico- Inferior).
A instrução iniciática era feita «de boca a boca», ou seja, por transmissão oral secreta de Mestre a discípulo, por isso há tantas referências simbólicas ao «beijo» em quanto forma de transmissão de conhecimento secreto nos variados textos gnósticos, nos quais se diz, por exemplo, que «os Iniciados engravidam mediante um beijo, e dão à luz» (Ev. de Filipe), ou a iniciação gnóstica simbolizada pelo beijo na boca que Jesus dá a Tiago, revelando-lhe «coisas que os céus não conheceram» (II Apoc. de Tiago), ou ainda, e de acordo com o mesmo princípio, os «beijos na boca» que Jesus dava a Maria Madalena registados no evangelho de Filipe.
Por conseguinte, o «casamento» de Jesus com Maria Madalena, e o simbolismo de ela ter «engravidado» por obra de um «beijo» do Mestre, ficando «prenhe» de Gnose, é um facto místico e esotérico perfeitamente enquadrável no simbolismo das correntes gnósticas e esotéricas do cristianismo primitivo, e respectivos círculos iniciáticos (Matrimónio Místico do Eu superior com o Eu inferior), e não um evento cruamente biológico e historicista tal como tem dado azo a inúmeras e fantasiosas especulações. Aliás, os próprios gnósticos dos séculos II e III em cujos textos Dan Brown diz ter-se inspirado, ficariam horrorizados com a blasfémia de se pensar sequer que o simbolismo iniciático da Gnose pudesse ser entendido como um casamento físico entre o Mestre e algumas das suas discípulas…
3) O esoterólogo Pierre Riffard, alude em seu livro “O Esoterismo: uma antologia” ao fato da Igreja Católica não ser contrária ao Esoterismo em si, mas ser explicitamente contra alguns esoterismos em particular, considerados anti-católicos (rosacruz, maçonaria, teosofia, antroposofia, etc.). Pressupondo estar correta a asserção riffardiana, quais fatores ajudariam a compreender a ambiguidade desta relação Igreja-Esoterismo, na opinião do Senhor?
Antes de mais nada, convém deixar bem claro que a generalidade dos teólogos cristãos (católicos ou protestantes) consideram que a abordagem esotérica da Bíblia é uma abordagem ilegítima, e que qualquer método ou sistema esotérico de interpretar a Escritura contraria frontalmente as próprias formas e conteúdos bíblicos porque, segundo a teologia da Igreja, não há nada de secreto ou oculto nos versículos bíblicos, e muito menos nos ensinamentos de Jesus como ele próprio afirma: «Eu falei francamente [gr. parrêsiai, abertamente] ao mundo, eu sempre ensinei na sinagoga e no templo onde concorrem todos os judeus, e no oculto [gr. en kryptôi] não falei nada» (João 18, 20).
Para a teologia católica romana (e também protestante) a busca de significados espirituais profundos ou esotéricos nas passagens bíblicas constitui uma hermenêutica abusiva, e por isso mesmo não surpreende — segundo os teólogos — que os diversos intérpretes esotéricos apresentem contradições irreconciliáveis nas suas interpretações de específicos versículos bíblicos, visto que nenhuma autoridade individual, seja a dos diferentes esoteristas ou outros quaisquer intérpretes, se pode sobrepor à autoridade da própria Escritura, tal como explicita o teólogo Ron Rhodes no seu artigo “Esotericism and Biblical Interpretation” (Christian Research Journal, Winter 1992, p. 28).
Tanto quanto julguei entender, o argumento de Pierre A. Riffard incide mais sobre a forma enviesada como a Igreja em certos casos lida com as situações incómodas, e Riffard estabelece, e bem, uma distinção entre o mistério e o segredo: a Igreja aceita o mistério, mas rejeita o segredo, tal como ele diz no seu livro: «…o esoterismo não é fustigado [pela Igreja] senão de forma indirecta […]. Que vemos nós? O Index librorum prohibitorum contempla a heresia, a irreligião, a superstição, o erotismo… mas não o esoterismo. Quando a Igreja condena a maçonaria, não condena o seu esoterismo, uma vez que a Igreja apenas conhece uma maçonaria exotérica, ela não condena o mistério, mas sim o segredo, como o segredo de qualquer associação clandestina» (L’ésotérisme: Qu’est-ce que l’ésotérisme? Anthologie de l’ésotérisme occidental, p. 24). Nem pode ser de outro modo, visto que a interpretação verdadeira da Escritura é uma prerrogativa e um magistério que a Igreja recebeu dos apóstolos (por isso a Igreja se auto-denomina apostólica) e deles não se pode desviar; qualquer outra interpretação, nomeadamente de tipo esotérico, será sempre condenada pela Igreja como ilegítima. Um dos maiores teólogos portugueses, o professor catedrático Joaquim Carreira das Neves, dedica vários textos seus, importantes, a este assunto, por exemplo no seu livro Jesus de Nazaré, Quem És Tu? (todo o capítulo: «Jesus foi um esotérico?», pp. 242-249), ou o artigo «A Bíblia como História frente ao Esoterismo» (na revista Didaskalia, XX, 1, 1990, pp. 167-188), onde desenvolve claramente a posição da Igreja rejeitando em absoluto o carácter esotérico dos conteúdos bíblicos bem como as interpretações esotéricas que os vários esoteristas têm feito deles ao longo dos séculos.
Pese embora as objecções eclesiais que os teólogos possam argüir contra o Esoterismo bíblico, argumentando que «a Sagrada Escritura é uma literatura religiosa funcional», e não oculta ou de significados profundos, e que «Jesus não era um apocalíptico que falasse por enigmas» (Jesus de Nazaré, Quem És Tu?, pp. 243 e 245), a verdade é que tanto a Escritura judaica (Antigo Testamento) como os textos do Novo Testamento contêm inúmeras passagens susceptíveis de diferentes níveis de leitura: a «leitura literal», a «leitura teológica», a «leitura esotérica», etc. Como é óbvio, estas diferentes leituras conduzem a diferentes hermenêuticas; já as escolas rabínicas dos antigos judeus referiam os aspectos misteriosos, secretos e esotéricos de um certo número de livros da Escritura, proibindo mesmo o acesso a alguns deles (Génesis 1, Ezequiel 1 e 40-48, Cântico dos Cânticos, etc.), só os autorizando a adultos devidamente preparados e instruídos. Por sua vez o Targum, enquanto interpretação feita no Templo das leituras litúrgicas da Escritura hebraica, visava sobretudo trazer à luz o sentido oculto, ou esotérico, reconhecidamente existente na mesma Escritura.
Na hermenêutica cristã primitiva distinguiu-se o gigantesco Orígenes (sécs. II-III): ele considerava que a Bíblia fala uma linguagem de símbolos e que é crucial desvendar o «mistério último» contido cripticamente na Escritura. Foi figura preponderante na Escola de Alexandria, que preconizava o método alegórico para a hermenêutica bíblica, no que se opunha à Escola de Antioquia, que defendia o método histórico e literal. Escusado será dizer que foi esta última que venceu e preponderou na chamada «Grande Igreja», oficializada e imposta para todo o império romano por Constantino e sobretudo por Teodósio, no século IV. Em consequência, as teses de Orígenes foram condenadas no II Concílio de Constantinopla do séc. VI, que homologou os famosos «XV Anátemas Contra Orígenes».
Antes de concluir este item, vale a pena chamar a atenção para o seguinte:
Dos quatro evangelhos canónicos, o de Marcos é o mais antigo, o mais próximo das primitivas comunidades, ou ekklêsiai, iniciáticas cristãs e portanto o mais esotérico — sobretudo se considerarmos o fragmento desse evangelho descoberto pelo Prof. Morton Smith em 1958 no mosteiro cristão bizantino de Mar Saba, em Israel, e divulgado em dois livros seus, em 1966 e 1973. Para além duma inequívoca cerimónia iniciática cristã referida nesse fragmento, o próprio evangelho de Marcos tal como chegou até nós, nas Bíblias correntes, não deixa lugar a dúvidas quanto ao esoterismo dos ensinamentos de Jesus: Marcos insiste na ideia de que existia um círculo iniciáticio interno (os Doze) que podia ter acesso ao conhecimento profundo, em contraste com as multidões ( = «os de fora»: gr. ‘oi exô, ou seja, os profanos) às quais só se poderia falar em parábolas e comparações: «E dizia-lhes [aos discípulos]: A vós, foi-vos dado [conhecer] o mistério do Reino de Deus, mas aos de fora tudo se dá em parábolas» (Marcos 4, 11); «E com muitas parábolas semelhantes lhes falava a palavra [às multidões], segundo podiam entender; mas privadamente [gr. kat’idian] aos discípulos explicava tudo» (Marcos 4, 33-34). Muitos outros exemplos se poderiam aduzir, limitar-me-ei a apresentar mais um de carácter protocabalístico (Marcos 8, 16-21), e tem a ver com os números de pães e peixes, e o seu simbolismo numerológico, a propósito do milagre da multiplicação dos mesmos: o próprio Cristo chama a atenção para esses números, e obriga os discípulos a repeti-los: 5, 7 e 12, dizendo: «A vossa mente não alcança, nem entendeis?» (Marcos 8, 17), e perante a obtusidade deles surpreende-se como é possível não verem o mistério oculto nessa numerologia, e repete: «Ainda não entendeis?» (Marcos 8, 21).
Ora, isto vem a propósito duma frase do evangelho de João, citada mais atrás, proferida por Jesus e utilizada pela Igreja para tentar provar que Jesus não era um esotérico: «Eu falei francamente ao mundo, eu sempre ensinei na sinagoga e no templo onde concorrem todos os judeus, e no oculto não falei nada» (João 18, 20). Esta frase é dita quando Jesus é preso pelos guardas do Templo a fim de ir a julgamento.
O evangelho de Marcos, muito anterior ao de João, refere a forma textual primitiva dessa frase: «Todos os dias estava no templo convosco ensinando, e não me prendestes» (Marcos 14, 49). O evangelho de Marcos terá sido redigido por volta do ano 70 d.C., ao passo que a redacção final de João é datável de perto do ano 100 d.C. O redactor tardio de João acrescentou «falei francamente, ou abertamente [gr. parrêsiai]», e insiste que nada disse «em oculto [gr. en kryptôi]». Trata-se obviamente dum acrescento proto-ortodoxo, de tipo eclesiástico, para acentuar o carácter «aberto» da doutrina, em contraste com o carácter oculto das outras comunidades iniciáticas, gnósticas ou não-gnósticas: a partir da segunda metade do século I, e sobretudo na viragem do século I para o século II, e seguintes, acentuou-se a tendência proto-ortodoxa que compreendeu que a melhor maneira de expandir a doutrina era «exoterizá-la», torná-la aberta e sem segredos e ao alcance de todos, e os «mistérios» deixaram de ser iniciáticos para serem apenas verdades reveladas que ultrapassam os poderes e as capacidades da razão natural — como o mistério da Imaculada Concepção, o mistério da Ressurreição, o mistério da Santíssima Trindade ou o mistério da Transubstanciação, mistérios esses que só podem ser aceites pela fé, e não entendidos pela gnose (conhecimento). Com isto desaparecia a exclusividade elitista dos círculos iniciáticos e gnósticos, que implicavam preparação, estudo, conhecimento, iniciação e segredo, acessíveis apenas a uns poucos, em contraste com a abertura a todos, mesmo os de fracas capacidades, proposta pela corrente proto-ortodoxa, porque aquilo que os crentes não entendessem, bastava que o aceitassem pela fé cega.
Podemos surpreender-nos que o evangelho de João, tão prezado pelas mais variadas correntes esotéricas e ocultistas tanto antigas como actuais, esteja inquinado com algumas passagens nitidamente anti-esotéricas, como esta e outras que pretendem pôr em causa, por exemplo, a autoridade do misterioso evangelho de Tomé: na famosa aparição aos discípulos, depois da Ressurreição, em João 20, 19-23, estão todos presentes menos Tomé, de modo que, quando Jesus sopra sobre eles e diz: «Recebei o Espírito Santo», conferindo-lhes o poder de perdoar os pecados, Tomé fica excluído dessa efusão mistérica e pneumática, o que obviamente tem por fim desacreditar a autoridade do respectivo círculo iniciático (Tomé não recebeu a efusão do Espírito Santo, por isso a sua comunidade e o seu evangelho não são válidos!)
A verdade é que o evangelho de João, nas cópias manuscritas mais antigas que chegaram até nós (aliás como os outros textos bíblicos), não oferece garantias de pureza original pois as mãos de muitos escribas e copistas passaram por ele, e hoje é impossível, mesmo com as mais sofisticadas técnicas de investigação e de «crítica textual», ter uma ideia sequer aproximada de como seria o primeiro texto autógrafo donde foram feitas as sucessivas cópias ao longo dos séculos.
Já para não falar no problema da autoria dos evangelhos que só foi atribuída nos fins do século II d.C. pelo apologeta proto-ortodoxo Ireneu de Lião, que no entanto reconhecia (Adversus Haereses III, 11, 9) que certos grupos cristãos, que ele qualifica como «heréticos», não aceitavam a autoria joanina do Quarto Evangelho. Hoje existe um razoável consenso entre os especialistas bíblicos que o evangelho dito de João passou por vários estágios de transmissão do texto, com, pelo menos, três autores: (1) O autor do «evangelho dos sinais [gr. sêmeia]», em que os sete «milagres» registados em João fazem parte dum primitivo texto onde os «milagres» são designados como «sinais» certificadores da fé; (2) Um «evangelista» que interpreta os «sinais» como indicadores de uma revelação do Deus-Pai invisível, feita por intermédio de Jesus Cristo; (3) Um «redactor» eclesiástico, final, que acrescenta a proclamação do iminente fim do mundo, dos sacramentos e duma ética que coloca os cristãos como a elite entre os homens bons. Segundo certos biblistas, entre a primeira e a terceira fase decorreu um lapso de tempo de, pelo menos, 50 anos, ou seja, os últimos redactores e copistas tiveram tempo e oportunidade para «ajeitar» o texto a uma cristologia cada vez mais antignóstica, bem como à emergência crescente de Pedro como apóstolo principal.
4) Ainda sobre Igreja e Esoterismo, desejo levantar uma questão específica, a qual pode se desdobrar em outros aspectos: o chamado “docetismo” gnóstico, mencionado no seu livro “Esoterismo da Bíblia". Conforme pude entender — e se estiver errado, me corrija —, esta teoria tinha duas variantes. Numa delas, o homem Jesus recebe Cristo (Espírito cósmico) no batismo do Jordão; no momento dramático da crucificação, Cristo abandona Jesus, e deixa este morrer sozinho. Noutra versão, Cristo na Terra apenas se valeu de um corpo “fantasma”, e por conseguinte, sua morte na cruz foi apenas de “aparência”… Semelhante teoria revela muito do dualismo gnóstico —ie, sua aversão à matéria—, e foi considerada “herética” pela Igreja de Roma. O senhor poderia nos explicar melhor o que era o tal “docetismo”?
Antes de mais convém esclarecer que ao contrário da opinião convencional acerca de «ortodoxia» e «heresia» no cristianismo primitivo, opinião essa que durante muito tempo transmitiu a falsa noção de que haveria um tronco central do cristianismo («proto-ortodoxo» e mais tarde «ortodoxo), derivado dos ensinamentos de Jesus e disseminado sem desvios pelos apóstolos, do qual divergiriam diversas tendências aberrantes e sectárias que por isso mesmo se chamam «heresias» — a realidade histórica é bem diferente. O primeiro a desferir um golpe demolidor nessa visão simplista foi Walter Bauer (1877-1960), um investigador do cristianismo primitivo de grande erudição, que em 1934 publicou uma importante obra de referência, em língua alemã, intitulada (na tradução inglesa) Orthodoxy and Heresy in Earliest Christianity. Através do estudo dos elementos históricos disponíveis Bauer concluiu que a corrente que veio a ser conhecida como «ortodoxia» era apenas uma, e nem sequer a mais significativa, dentre as inumeráveis formas de cristianismo nos primeiros séculos.
Na realidade, dos ensinamentos e dos actos de Jesus saiu directamente um leque de formas divergentes que deram origem a um não pequeno número de linhas de espiritualidade, das quais nenhuma delas se poderia dizer que representasse uma clara maioria de crentes face a todas as outras: tão-pouco se poderia dizer que a chamada «ortodoxia» existisse nos séculos II e III — quando muito poder-se-á falar em «proto-ortodoxia». Aliás, em muitas das regiões por onde se espalhou o cristianismo, as comunidades cristãs maioritárias e dominantes eram constituídas por elementos que perfilhavam concepções cristológicas — gnósticas ou não-gnósticas — que mais tarde viriam a ser consideradas como «heréticas». Por muito estranho que isto nos pareça (então Jesus não é um só, e os seus ensinamentos não são os que vêm na Bíblia?), a verdade é que os próprios discípulos não compreendiam Jesus, como vemos em tantas passagens dos evangelhos, sobretudo no de Marcos, onde se insiste que os discípulos interpretam de diferentes maneiras os discursos e os actos do Mestre, ou nem sequer os entendem, tal como o exemplo que citei na resposta à pergunta anterior (Marcos 8, 16-21).
Não surpreende, por conseguinte, que essas diferenças de interpretação dessem imediatamente origem a escolas e círculos iniciáticos com diferentes concepções cristológicas. Uns diziam que havia um só Deus, e que Cristo era a humanização d’Ele na terra; outros diziam que havia dois deuses, o Deus supremo e o Demiurgo, criador desastrado do mundo e da matéria, e que Cristo era um enviado do primeiro para resgatar os erros do segundo; outros diziam que havia dois deuses, Deus-Pai e Deus-Filho, porque consideravam a divindade de Jesus à parte; outros diziam que Jesus era completamente humano e não divino; outros diziam que Jesus era completamente divino e não humano; uns achavam que Jesus tinha vindo cumprir as profecias judaicas, e completar a lei; outros repudiavam a lei judaica, e que Cristo inaugurara uma nova era, a do amor, contra o rigor da lei, e rejeitavam o Antigo Testamento na sua totalidade; uns acreditavam que Jesus nascera duma virgem por obra do Espírito divino; outros defendiam que Jesus era um ser humano, nascido naturalmente de José e de Maria, e escolhido por Deus para desempenhar uma missão; etc. etc.
O professor catedrático Antonio Piñero da Universidade Complutense de Madrid, reputado especialista de cristianismo primitivo, de gnosticismo e de línguas antigas, numa conferência sobre este assunto que proferiu o ano passado em Lisboa, referiu pelo menos doze concepções diferentes, algumas antagónicas, reinantes nas mais distintas comunidades cristãs primitivas e todas em pé de igualdade, não se podendo dizer que uma fosse mais «verdadeira» ou mais «importante» que as outras — o que importa realçar é que todas essas diferentes escolas e correntes cristãs se reclamavam de ter a sua origem nos ensinamentos deste ou daquele apóstolo, como por exemplo o gnóstico Valentim que se dizia discípulo de Theudas que por sua vez fora discípulo de Paulo, ou os que se diziam seguidores e discípulos de Tiago, de Pedro, de Tomé, etc. considerando-se ao mesmo nível de autoridade e de apostolicidade da corrente proto-ortodoxa que mais tarde daria origem à chamada «Grande Igreja».
É neste contexto que surgem designações cristológicas como «docetismo», «adopcionismo», «separacionismo», «patripassionismo», «subordinacionismo», etc., designações que foram sendo atribuídas às diversas concepções cristológicas que resumi mais atrás.
A pergunta refere dois aspectos distintos de alguns dos vários movimentos gnósticos: um deles, o «adopcionismo», ensina que Jesus foi um ser humano excepcional filho natural de José e de Maria, que pelas suas inúmeras virtudes mereceu ser «adoptado» por Deus-Pai como seu Filho, tornando-se um instrumento do divino Cristo-Logos; uma das variantes dessa doutrina diz-nos que essa «adopção» teria ocorrido no momento do Baptismo, com a descida da Pomba do Espírito Santo sobre Jesus, ao passo que outra refere que essa «adopção» somente ocorreu no momento da morte na cruz, quando o espírito se libertou, a sua missão se cumpriu e Deus-Pai o divinizou.
O «docetismo» propriamente dito pode também apresentar diversas variantes, por exemplo a do gnóstico Basilides ou a do gnóstico Cerinthus. De acordo com o primeiro, o Cristo-Logos sendo divino, eterno e perfeito, não poderia conspurcar-se com a sua involucração num corpo de carne, visto que a matéria é impura e má por natureza. Assim, o Cristo era um «poder incorpóreo» (lat. virtus incorporalis) e o seu corpo era apenas aparencial, parecia de carne mas na verdade era algo de fantasmático que devido ao seu grande poder crístico podia assumir aparência de solidez, comer, beber, falar às multidões, tocar nas pessoas e ser tocado, etc. — mas não passava tudo de aparência: a palavra «docetismo» quer dizer isso mesmo, vem do verbo grego dokeîn, que significa parecer ou aparecer. No momento da crucificação, segundo Basilides, quem morreu foi Simão de Cirene que carregou a cruz, e o Cristo foi visto pelo apóstolo Pedro (Apocalipse de Pedro, Biblioteca de Nag Hammadi) pairando sobre a cruz, em espírito e rindo com o engano dos seus executores. Por sua vez, e de acordo com Cerinthus, o Cristo-Logos incarnou no corpo do Jesus histórico no momento do Baptismo; na crucificação, a Espiritual Força Crística abandonou o corpo de Jesus de Nazaré, e foi este quem sofreu e morreu, e por isso exclamou: «Por que me abandonaste?»
Em suma, tudo isto mais uma vez nos confirma as dificuldades com que depara o estudioso do cristianismo primitivo que queira apurar da «verdade» ou da «falsidade» de todas estas correntes, incluso a proto-ortodoxa. Por isso os investigadores esoterólogos procedem cautelosamente e não preconceituam da veracidade ou falsidade das diversas correntes místicas e esotéricas, debruçando-se antes sobre as condições e circunstâncias sócio-históricas que levaram ao seu surgimento, desenvolvimento e desaparição — ou, em alternativa, preponderância e triunfo histórico, como por exemplo o fascinante estudo que tenta explicar por que foi que a corrente proto-ortodoxa, organizada a pouco e pouco de forma patriarcal e autoritária, à semelhança da hierarquização rigorosa e implacável do Império romano, conseguiu finalmente vingar e ser aceite pelo imperador Constantino que, em Roma, disponibilizou enormes recursos financeiros aos cristãos, ou melhor, à chamada «Grande Igreja», que facilmente se impôs, com esses meios, e reescreveu a História dando desta corrente uma visão maioritária (Eusébio de Cesareia, Historia Ecclesiastica, sécs. III-IV), e fazendo com que os escritos que apoiassem outras visões ou outras correntes de espiritualidade cristã fossem sistematicamente destruídos.
5) Se possível, complemento a pergunta acima com outra: o rosacruz Max Heindel, autor estimado pelo senhor, aceita a distinção entre Jesus e Cristo, todavia, ao mesmo tempo, enfatiza a morte real e física do Cristo-Jesus na cruz, no chamado “Mistério do Gólgota”; salvo engano meu, a visão de Heindel não é —de certa maneira— uma “conciliação” entre os pontos de vista do gnosticismo e da teologia cristã tradicional?
Realmente, o Rosacrucismo tem bastantes raízes gnósticas, e quando se estudam e comparam os antigos movimentos gnósticos com os princípios do esoterismo Rosacruz, encontramos muitos pontos de contacto, sobretudo em Max Heindel (1865-1919) que consegue uma excelente harmonização entre o princípio da Fé (cristianismo ortodoxo), e o princípio da Gnose ( = conhecimento/intelecto espiritual, princípio dos gnósticos). Em vez de opor um ao outro, como faziam e fazem os acérrimos defensores da Igreja, por um lado, e os ocultismos teosofistas, por outro, para os quais a Salvação ou está exclusivamente na Fé ou exclusivamente na Gnose (para estes últimos a ignorância [gr. agnoia] é o pior dos pecados) — Max Heindel salienta (e quanto a mim, bem), que ambos os princípios se complementam e se harmonizam, porquanto o ideal do Homem Superior é unir o coração (Fé) e a mente (Gnose), em vez de ficar apenas na devoção mística (Fé—Igreja) ou nas iniciações ocultas (Gnose—Escolas de ocultismo).
Outros autores importantes, para além de Heindel, também perfilham este princípio de harmonização: por exemplo o hermetista suíço Oswald Wirth (1860-1943), contemporâneo de Max Heindel e discípulo do famoso ocultista Stanislas de Guaïta, explica que o ocultista desenvolve a sua individualidade através da exaltação do Enxofre e a sua Iniciação é masculina ou dórica (Marte), ao passo que o místico conforma a sua personalidade aos princípios da Iniciação feminina ou jónica (Mercúrio segundo Wirth, Lua segundo Heindel). O ideal máximo a alcançar consiste portanto na superior harmonização de ambos os princípios no mesmo ser humano a que Wirth chama o Teurgo e Heindel o Adepto, e no qual se concilia a elevada actividade intelectual do ocultista com a elevada passividade cordial do místico. Uma explicação mais aprofundada e muito clara deste excelso ideal encontramo-la no capítulo XVII da obra de referência Conceito Rosacruz do Cosmo de Max Heindel, onde se descreve o percurso das correntes sexuais respectivamente no místico, no ocultista e no Adepto, e sua sublimação e transmutação espiritual neste último.
Para a corrente Rosacruz seguida por Max Heindel, há de facto diferença entre Jesus e Cristo: Jesus de Nazaré é um ser humano altamente evoluído, filho natural de José e de Maria, que se qualificou com um intenso preparo esotérico e espiritual para receber, no momento do Baptismo, o Espírito Cósmico do Cristo que utilizou o seu corpo durante o ministério de três anos, incluso na Crucificação, somente o abandonando no sepulcro. Por isso o sepulcro de Cristo Jesus foi encontrado vazio: as altíssimas vibrações do Cristo desintegraram os átomos do corpo morto de Jesus, o qual perdera com a morte o forte poder coesor de que necessitava para conter a elevadíssima espiritualidade vibratória do Cristo. Foi este, e não Jesus, quem apareceu em corpo espiritual «ressuscitado» aos discípulos, e ascendeu aos céus; Jesus, nos reinos invisíveis, tem desde então trabalhado com as Igrejas cristãs, sendo o génio protector da obra devocional das Igrejas mediante a qual a religião é fomentada e o ser humano é recuperado para Deus através da senda cordial (lat. cor, cordis, «coração») da Devoção.
Registe-se, por curiosidade, que a imagem de Jesus impressa no Sudário de Turim e cuja misteriosa formação tem constituído um quebra-cabeças para os cientistas das mais diversas especialidades, parece provir de uma radiação controlada emitida por um corpo que se desintegrou em átomos irradiando partículas de alta energia, o que justificaria, por um lado, o desaparecimento do corpo no sepulcro, e, por outro, a relutância da Igreja em aceitar a autenticidade do Sudário — se é autêntico, pode ser uma prova incómoda de que o Cristo não ressuscitou «em corpo de carne», mas em «corpo espiritual» ou «corpo etérico» como defendem os esoteristas…
6) Falando de Rosacruz e rosacrucianismo, autores como G. Lessing (tido como rosacruciano), M. Heindel e R. Steiner concebiam o cristianismo como um ideal de moralidade livre e superior. Mesmo R. Abellio, que não era a rigor um “rosacruz”, assumia em sua autobiografia “Sol invictus”, sob a influência de Steiner, uma visão do Cristo como o “portador da liberdade”, ao abalar a autoridade paternalista da Lei antiga. Na sua visão de Rosacruz, o senhor outrossim enxerga esta relação entre cristianismo rosacruz e uma ética da liberdade?
Sem dúvida, desde que não se confunda uma visão de liberdade com uma visão libertinária. Aliás esse ideal de liberdade, tipicamente cristão e revolucionário no contexto sócio-histórico em que surgiu (um ambiente impregnado, simultaneamente, de judaísmo patriarcalista e autoritário, e de paganismo greco-romano também patriarcalista e autoritário), já é muito patente nas cartas de Paulo — e refiro-me às sete epístolas consideradas autênticas pelos especialistas bíblicos: 1 Tessalonicenses, Gálatas, 1 e 2 Coríntios, Filémon, Filipenses e Romanos, compostas entre os anos 50 e 56 d.C. — as restantes são pseudónimas e escritas muito posteriormente, nalguns casos para tentar «corrigir» precisamente essa visão de liberdade típica de Paulo, visão convivial e igualitária para todos os seres humanos, homens ou mulheres, senhores ou escravos, desta ou daquela etnia ou cor de pele, e correlativa não sujeição às autoridades repressoras, como naquele tempo a dos Romanos.
Paulo sempre aceitou, tal como Jesus, a igualdade entre discípulos e discípulas, incluso cita o nome de mulheres diáconas e apóstolas (Febe: diácona, em Romanos 16, 1; Júnia: apóstola, em Romanos 16, 7), em contraste com a pseudopaulina e tardia epístola aos Efésios, por exemplo, em que se afirma que as mulheres têm de obedecer e submeter-se aos maridos (Efésios 5, 22-24), ou uma escandalosa interpolação na epístola aos Coríntios, em que se proíbe às mulheres de falarem nas igrejas e que perguntem aos maridos, em casa, se querem aprender alguma coisa (1 Coríntios 14, 34-35).
O cristianismo Rosacruz não pode deixar de perfilhar essa ética superior de liberdade e igualdade, aliás magnificamente expressa pelos dois maiores Iniciados cristãos, Paulo e João: «Não sabeis que sois templo de Deus, e o Espírito de Deus habita em vós?» (1 Coríntios 3, 16); «O Senhor é o Espírito, e onde está o Espírito do Senhor há liberdade» (2 Coríntios 3, 17); «Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará» (João 8, 32) — e isto é válido para homens ou mulheres, senhores ou escravos, judeus ou gentios, como acentua Paulo sem equívocos: «…já não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há varão nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus» (Gálatas 3, 28).
7) Para encerrar, li recentemente um artigo do R. Amadou, escrito em 1977, sob o influxo da contracultura dos anos 60-70; no artigo mencionado, o Amadou fazia uma crítica radical do que considerava versões burguesas e autocráticas de vida e de Esoterismo, postulando em contrapartida a iniciação esotérica como atualização da tradição, e como via da liberdade e efetivação do potencial humano. Trazendo um pouco daquela problemática para nosso contexto atual, e levando em conta os escritos do senhor sobre iniciação e Nova Era, pergunto: em sua visão, o Esoterismo, e portanto a iniciação, poderia contribuir para nossa sociedade não perder o sentido da vida espiritual, sem ao mesmo tempo ter de ficar presa às formas ultrapassadas de religião e espiritualidade? Se sim, como seria isso?
Não creio que seja fácil de alcançar, esse ideal, nas sociedades laicas dos tempos que correm. Não estou a ver o presidente Lula da Silva, ou o presidente Hugo Chávez, já para não falar do presidente Putin ou do presidente Bush, a tornarem-se altos iniciados para dirigirem os destinos dos respectivos povos de forma esotericamente espiritual. Já houve tempo em que isso não só foi possível, como nem podia ser de outra maneira: os faraós do antigo Egipto eram reis e sacerdotes, e os monarcas medievais eram reis pela «graça de Deus».
Entretanto os tempos mudaram com a evolução da História e da Humanidade. Por muito estranho que pareça o caminho da espiritualidade progressiva alcança-se apenas depois de ter batido no fundo da mais espessa materialidade — tal como diz um antigo provérbio alquímico: «Para que os ramos duma árvore alcancem o céu, é preciso que as suas raízes mergulhem no inferno». É isso que estamos a sofrer actualmente: o inferno da materialidade. Hoje os governantes (quaisquer governantes, mesmo o simples chefe de escritório ou o chefe de família) é um profano que na maioria dos casos se vangloria de ser ateu ou pelo menos agnóstico, e os que aparentam alguma forma de religiosidade, como os chefes de Estado de certas nações católicas ou protestantes, no fundo apenas seguem uma religiosidade exotérica não muito distante dum ritualismo meramente formal, sem a sacralidade de um sopro autenticamente divino — tal como, por muito que nos custe reconhecê-lo, as manifestações e os ritos cultuais, meramente externos, da própria Igreja e da maioria dos crentes. É este porém um passo indispensável, a materialidade tem de ser confrontada, compreendida, vencida e ultrapassada para podermos ascender, com uma nova super-consciência, à verdadeira e livre espiritualidade.
Podemos interrogar-nos, de facto, se o Esoterismo e a Iniciação (que pressupõe adesão profunda e consciente a uma Escola de Mistérios), poderia contribuir para que a nossa sociedade não perdesse o sentido da vida espiritual, tão degradado pelos formalismos de certo modo ultrapassados das religiões institucionalizadas. A isso só poderei responder que as religiões, com todas as suas insuficiências, são todavia meios indispensáveis para que a generalidade dos seres humanos «alcancem Deus», pois para a maioria é mais acessível o caminho devocional da Fé, mesmo cega e irracionalista, do que o caminho oculto da Gnose, que implica o entendimento e a abertura a uma racionalidade superior, a Razão do Logos. Quando o evangelho de João revela, nos seus primeiros versículos, que «No princípio era o Logos [ = palavra, discurso racional] […] e tudo foi feito por ele», revela do mesmo passo que a racionalidade (divina!) é uma característica do universo e de tudo quanto nele existe, incluso o ser humano: o Real é Racional. Mas, claro, esta racionalidade sublime, que não é rasteiramente racionalista como a da quotidiana razão instrumental, não é alcançável por quem quer, por isso a suprema Inteligência ordenadora do cosmo permite que o Homem se eleve ao nível da Divindade por duas vias: a senda da Evolução e a senda da Iniciação.
A senda da Evolução, a da humanidade comum, pode ser equiparada a um caminho ascensional circundando a montanha, em subida relativamente suave e sucessivas voltas espiraladas até atingir o Alfa-Ómega do cume. Claro que é um caminho longo e lento, talvez de muitos milhões de anos, e envolve todo o penoso percurso com seus muitos erros, tentativas, avanços e retrocessos — dos quais um dos passos inevitáveis é, precisamente, defrontar o desafio do materialismo e conseguir superá-lo e vencê-lo.
Por sua vez a senda da Iniciação é como subir a montanha por meios alpinistas, em que o candidato se iça na vertical, a pique e à força de pulso; é muito mais rápido mas requer um esforço e um preparo muitíssimo maiores, e são raros os que o empreendem, e muito mais raros ainda os que conseguem ir até ao fim sem desistir a meio.
Por isso não desanimemos! Se falharmos a plena realização da senda iniciática, sempre temos ao nosso dispor o caminho mais longo, mas não menos certo, da lenta evolução. Na certeza de que, quer num caso, quer no outro, o Alfa-Ómega do cume é o mesmo e estará sempre de braços amorosamente abertos, aguardando a nossa chegada ao topo e o regresso do filho pródigo à «Casa do Pai Misericordioso».
Antonio de Macedo
Abril 2007
Blog antigo 2: Jacob Boehme-Introdução
Jacob Boehme: introdução -Daniel Placido
(Escrito em maio de 2007)
“(...)Jacob Boehme, em sua locanda de sapateiro em Goerlitz,
caía em êxtase perante o revérbero do sol em pratos de estanho...
Aos olhos do contemplativo, o mais comezinho objeto pode
converter-se em espelho do mundo e da alma, quando iluminado
pela luz divina”.
Georges Gusdorf, in: “Tratado de Metafísica”, Civ. Brasileira, 1959
“Os séculos passados tiravam suas idéias de sua força imaginativa...
as grandes ideologias se manifestavam em figuras, em deuses...”
J. Goethe, in: “Carta a Riemer”(1806)
Jacob Boehme (1574-1624), humilde sapateiro, se tornou um dos maiores filósofos e místicos alemães, ao erigir um dos mais complexos edifícios cosmogônicos e teogônicos da filosofia cristã, e mesmo de toda a metafísica ocidental; a mística é a alma e o ‘télos’ do seu sistema teológico-filosófico.
No lastro de Meister Eckhart e Nicolau de Cusa (1), o filósofo alemão renascentista envereda por uma metafísica “monista”: não há senão uma única substância ou essência – a divina -; e ademais “emanatista” ou “processionista”: como só há uma essência, os seres e mundos são “emanações” ou “processões” suas (2), portanto.
Na teologia boehmiana, Deus compreende um duplo aspecto: imanifesto e manifesto. Deus imanifesto (ou Deidade) é denominado Abismo ou Sem-Fundo (“Ungrund”) (3), Absoluto além da essencialidade, e de qualquer determinação e expressão lógico-linguística, parecendo um calmo e sereno Nada ou Não-Ser, chamado também de “primeiro temperamentum” (equilíbrio); neste Nada, há apenas a Trindade não-revelada, e um princípio de manifestação: Sofia ou a Sabedoria Divina (4). Já em seu aspecto manifesto, Deus é compreendido em três pessoas distintas, mas unas, em uma Trindade: 1) Deus Pai: Vontade original; 2) Deus Filho: Vontade original apreendida num lugar, Palavra ou Coração de Deus: 3) Deus Espírito Santo: Espírito ou Vida da Palavra apreendida. Boehme costuma comparar a Trindade ao Fogo, Luz e Éter.
Esta (auto)manifestação divina, na dialética do Fundo e do Sem-Fundo, só atinge seu auge no Mundo de Luz, aonde a Trindade é realmente revelada, num novo nível teo-ontológico. Das Trevas sempternas, Deus “nasceu” para Si mesmo, autoconhecendo-se na processualidade dialética de Sua manifestação, tornando o em-si um para-si.
E a Filosofia-da- Natureza (“Naturphilosophie”)? No Sem-Fundo, há não-revelado o que Boehme chama de “Mysterium Magnum”: um princípio de separação de Deus e Natureza, responsável pela diferenciação do Uno, sem que este perca sua unidade, dando sua força e virtude à multiplicidade (5). Este “Mysterium Magnum” tem sua revelação, e dele se origina o “centrum naturae” (centro da natureza), do qual deriva por sua vez a Roda da Natureza eterna. Esta Natureza eterna, da qual a natureza física é uma degradação, opera segundo uma dialética setenária, denominada “sete propriedades, espíritos ou formas naturais”:
a) adstringência, atração, sal, Saturno;
b) amargor, expansão, Mercúrio;
c) angústia, luta, enxofre, Marte;
d) relâmpago, fogo, “Fiat Lux”;
e) luz suave, amor, Vênus;
f) som, tom, Júpiter;
e g) corporalidade, tangibilidade, Lua.
Este setenário pode ser decomposto em outros dois ternários, mediados pelo fogo (d):
Saturno, Mercúrio, Marte –atribuíveis ao Pai, Filho e Espírito Santo-; e Vênus [Marte transmudado], Júpiter [Mercúrio transmudado], Lua [Saturno, transmudado]- equivalem à revelação da Trindade no Mundo de Luz.
Assim como Boehme nos pede para vermos as três pessoas da Trindade como um só ser, co-extensivo e sem sucessão, pede para vermos também as formas da Natureza sem ordem ou sucessão, e todas atuando e se combinando juntas; tal divisão é feita apenas para facilitar a nosso entendimento finito a compreensão. Em outras palavras, as sete formas equivalem a um ‘élan vital’, sem início ou fim.
Podemos agora falar propriamente da cosmologia boehmiana.
Boehme organiza o universo em três gerações, princípios ou essências divinas:
1º) Mundo de Fogo, Trevas, Cólera Divina, ou Inferno: base ou raiz do Fogo, o qual é transformado em Luz, é o Inferno apenas nas criaturas e seres que se afastaram de Deus, como Lúcifer e os demônios;
2º) Mundo de Luz, Paradisíaco ou Coração de Deus: mundo das almas e anjos bons, é criado a partir do Fogo, e equivale a um “segundo temperamentum”(equilíbrio);
e 3º) Mundo terreno, externo ou extrageração: nosso mundo material, com seus astros e elementos (água, fogo, ar, terra, mais a quintessência oculta), oscila entre o primeiro e segundo princípios, até o Juizo Final.
Pensando na Trindade, podemos dizer: o primeiro princípio corresponde a Deus Pai, ie., ao Deus colérico; o segundo princípio, a Deus Filho, que suaviza a cólera do Pai, com seu Amor, fazendo dela a Luz; e o terceiro princípio, a Deus Espírito Santo, que criou este mundo, em sua matriz aquática, a partir do mundo paradisíaco.
Já pensando nas formas da natureza, podemos estabelecer, mas lembrando-se de que não se trata de uma divisão exata e estanque: 1. Mundo de Fogo: corresponde formas a, b, c [e d]; 2. Mundo de Luz: corresponde formas e, f, g; e 3) Mundo externo: forma d, o fogo (6).
Quanto às correspondências estabelecidas acima, vale destacar esta observação do próprio Boehme:
“(...) pois Deus não teve início algum. Vou no entanto expor as coisas como se Ele tivesse tido um início, a fim de que possa compreender o que Ele é no primeiro princípio e também seja possível conceber as diferença que há entre o primeiro e segundo princípios, bem como o que Deus ou o Espírito é. Na verdade, em Deus não há diferença alguma. Só quando se procura saber de onde vem o mal e o bem, deve-se saber o que é a primeira e original fonte da cólera, assim como a do amor , visto que ambos têm a mesma origem, a mesma mãe, e são uma única coisa. Estamos falando de maneira criatural...” . (in: “Os três princípios da essência divina”, Polar, p. 27). [7]
Cada ente, criatura, objeto, signo verbal manifestos no mundo visível e no invisível, traz em si a imagem da Trindade e das sete formas, e conforme seu nível de realidade, em maior ou menor grau; Deus conseqüentemente está em tudo e em todos. Mas nem todos estão em Deus...O Homem original (Adão), outrossim chamado de “príncipe angélico”, era a perfeita imagem de Deus, pois foi criado como tal, mas “manchou” esta imagem, ao cair do Paraíso.
Este ponto da Queda adâmica é relevante, pois para compreender-se a teologia e cosmologia de Boehme, é necessário não esquecer de sua alquimia e escatologia, bem como de sua ética e psicologia, aonde se insinua um “dualismo” (mas não-substancial, diferente portanto dos gnósticos e similares).
Segundo Boehme, este mundo terreno-natural, e este homem decaído, oscilam entre o Bem e o Mal, a Luz e o Fogo, o Céu e o Inferno, numa dualidade dramática e vertiginosa. Como se originou o Mal?
Lúcifer (o primeiro e formoso príncipe angélico) foi criado por Deus para ser regente do “locus” deste mundo, junto ao Amor divino. Todavia, Lúcifer desviou-se da Vontade de Deus, tomado de soberba, cobiça e orgulho, e dirigiu-se para a matriz colérica do Fogo, desejando com isso usurpar o poder de Deus, e se tornar maior do que Ele; porém, ao fazê-lo, inflamou suas essências, envenenou as formas deste mundo, e caiu no Inferno da Cólera de Deus – junto com os anjos rebeldes e conspiradores-, aonde estará para sempre exilado da Luz de Deus, por seu livre ato (8). Mais tarde, com inveja de Adão (Homem), o qual foi colocado por Deus em seu antigo lugar, como novo príncipe angélico, Lúcifer ou a Serpente maligna resolveu tentar à Adão, e teve êxito neste afã, fazendo-o cair na matéria, tomado da cobiça e do amor de si mesmo que Lúcifer soprou nele.
Tudo aparentava sem esperança para o mundo e o Homem. No entanto, como este não tinha destruído totalmente sua imagem divina – como ocorreu com Lúcifer, inimigo de Deus, dos anjos bons e do Homem -, se apiedou dele Coração de Deus, e na geração astral criou um novo e terceiro príncipe angélico –Jesus Cristo ou o Novo Adão-, cuja missão era penetrar no mundo e na humanidade, e dar a esta uma nova possibilidade de libertação e salvação.
Jesus Cristo esmagou a cabeça da Serpente, subjugou o poder da Morte e do Inferno, e levará o Homem – através de uma transfiguração alquímica – de volta ao Mundo de Luz e ao Amor de Deus, após o Juízo Final, bastando somente que este imite a vida e a morte de Cristo, espiritualmente falando; já Lúcifer e seus anjos maus, assim como os homens ímpios e cegos à redenção em Cristo, viverão eternamente no Inferno, aonde se lançaram livremente e contra a Vontade de Deus. Há então em perigo para cada homem.
Os homens humildes, pios, honestos, que entregaram seu coração e atos ao Coração de Deus, verão despontar a aurora e o tempo do lírio, plantado sobre o solo deste mundo; e os homens coléricos, orgulhosos, invejosos e luxuriosos, que assim corrompem e inflamam suas essências, como Lúcifer, já vivem no Inferno, sem saber disso, e aí ficarão para sempre.
Falta comentar a forma mitopoética dos escritos de Boehme.
Os personagens, passagens, símbolos contidos nas Escrituras Sagradas ganham em Boehme um sentido metafísico-transcendental, unindo à mitologia cristã um sistema lógico-filosófico rigoroso, e fazendo da filosofia uma maravilhosa epopéia do Espírito divino. Entre metáforas belas e poderosas, Boehme salta o brado convicto e emocionado do profeta, sendo talvez o último grande filósofo a ter ao lado da ciência, o cajado de Moisés ou Davi...
****
NOTAS:
1. As idéias de Boehme influenciariam mais tarde a Filosofia-da-Natureza do Romantismo alemão, em especial F. Von Baader e F. Schelling, assim como o racionalista G. Hegel.
Cf. “A filosofia alemã”, M. Dupuy, Edições 70, p. 50 ss.; “História da filosofia”, J. Marías, Souza e Almeida, p. 468; “Contribuição para história da filosofia e da religião da Alemanha”, H. Heine, Iluminuras, p. 70; “O Esoterismo”, P. Riffard, Mandarim, p. 91, p. 622 ss.; “O homem e a natureza”, S. H. Nasr, Zahar, pp. 74-75, p. 109; “El assalto lá Rázion”, G. Lukacs, Fondo de Cultura, p. 111; “Spinoza et lê problème de l ‘ expression”, G. Delleuze, Les Éditions de Minuit, p. 14; "O ocultismo", W. Janzen, Vozes; "A poética do devaneio", G. Bachelard, Martins Fontes; "A literatura alemã", O. M. Carpeaux, s/e;" Homens .representativos", R. W. Emerson, Ediouro, pp.17, 31-32, 50-51, 59, 74, 77.
2. Nem sempre é simples diferenciar “monismo”, “emanatismo”, “processionismo” etc. Encontramos elementos similares a Boehme em Plotino, na dita “teologia negativa” (Pseudo-Dionísio, Eckhart, N. Cusa), e na Cabalá teosófica (“O Zohar”), contudo, Boehme é diferente dos mesmos ao combinar um certo “dualismo” [mas não o gnóstico] com uma afirmação radical do tempo, como o fará mais tarde G. Hegel.
Cf. “A mística judaica”, G. Scholem, Perspectiva, p. 207 ss. E p. 283; “As Enédas”, Plotino, Polar (Enéadas V 2, V 1, VI 9); “O Zohar: livro do esplendor”, A. Bension (org.), Polar; “Dicionário de Esoterismo”, P. Riffard, Teorema, verbetes: panteísmo, Deidade, Deus, Grund, Nada, emanação; “Dicionário de filosofia”, J. F.Mora, Martins Fontes, verbete: emanatismo. Artigos especializados: “A processão em Plotino”, R. A. Ulmann, Revista Brasileira de Filosofia, n 183, p. 280 ss.; “Deus presente e Deus futuro em R. M. Rilke”, R. C. Czerna, Revista Brasileira de Filosofia, n 12, p. 613 ss; "Theosophy and Antroposophy in Russia" e "Boehme and russian sophiology", N. Berdiaeff, WEB..Escrito por daniel-placido às 21h36[(0) Comente] [envie esta mensagem] [link]
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3. Tomando em conta a nota 2, podemos colocar: o Sem-Fundo de Boehme corresponde aproximadamente ao Uno de Plotino, ao Deus inefável da teologia negativa, e ao “Ayn Sof aur” dos cabalistas judeus.
4. A Sabedoria divina, ou Shechiná, ou Virgem celeste, é o véu ou espelho aonde o olho de Deus contemplou antes da manifestação as idéias e arquétipos dos seres a serem criados.
5. Poderíamos imaginar Boehme como "panteísta", mas sua insistência em separar Deus Sem-Fundo e Natureza, no "MyteriuMagnum", não o permite. Boehme insiste na presença de Deus no mundo e em tudo, mas sem se confundir com estes, como água e óleo podem estar presentes no mesmo lugar, sem se misturarem.
6. Tanto é possível colocar o fogo (forma d) correspondendo ao Mundo de Fogo, primeiro princípio, como exclusivamente ao Mundo terreno, terceiro princípio.
7. Além da obra citada agora, estas são as outras obras básicas de Jacob Boehme consultadas por nós: "Mysterium Magnum", Tomo I, Editions Ahujourd Hui, trad. e intrudção de N. Berdiaeff; “Clavis”, Internet; “Aurora Nascente”, Paulus; “As 40 questões sobre a alma”, Polar; “A grande revelação do mistério divino”, contendo os tratados O verdadeiro arrependimento, Sobre a Contemplação divina, Mysterium pansophicum, e de A. D. Freher, Os princípios de J. Boehme, e Analogia entre Cristo e a pedra filosofial, Polar; “A sabedoria divina”, contendo biografia, um estudo de A. Mickiewickz, o tratado Sobre a vida supra-sensível, Diálogo entre uma alma renascida e uma não-renascida etc., pela Attar.
E os estudos: “Jacob Boehme: vida e obra”, F. Hartmann, Internet; “Ciência, sentido e evolução: a cosmologia de Jacob Boehme”, de B. Nicolescu, com texto Os seis pontos teosóficos, de Boehme, como apêndice, pela Attar; "A senda do homem celeste", J. G. Gicthel, discípulo de Boehme, Polar; e “O conhecimento iniciático”, R. Steiner, Antroposófica. Para uma consulta sobre as cosmogonias tradicionais, Cf. "Os diferentes níveis de realidade", P. Paul, Polar.
8. Por que Deus não pode “perdoar” Lúcifer? Primeiro, isto tiraria o valor da Justiça divina; e segundo, e sobretudo, Deus não pode faze-lo, pois o Fogo ou Cólera é sua potência e um aspecto de Seu Ser, que só se torna Mal nas criaturas como Lúcifer, que separaram deliberadamente o Fogo da Luz, caindo no Mundo de Trevas livremente.
(Escrito em maio de 2007)
“(...)Jacob Boehme, em sua locanda de sapateiro em Goerlitz,
caía em êxtase perante o revérbero do sol em pratos de estanho...
Aos olhos do contemplativo, o mais comezinho objeto pode
converter-se em espelho do mundo e da alma, quando iluminado
pela luz divina”.
Georges Gusdorf, in: “Tratado de Metafísica”, Civ. Brasileira, 1959
“Os séculos passados tiravam suas idéias de sua força imaginativa...
as grandes ideologias se manifestavam em figuras, em deuses...”
J. Goethe, in: “Carta a Riemer”(1806)
Jacob Boehme (1574-1624), humilde sapateiro, se tornou um dos maiores filósofos e místicos alemães, ao erigir um dos mais complexos edifícios cosmogônicos e teogônicos da filosofia cristã, e mesmo de toda a metafísica ocidental; a mística é a alma e o ‘télos’ do seu sistema teológico-filosófico.
No lastro de Meister Eckhart e Nicolau de Cusa (1), o filósofo alemão renascentista envereda por uma metafísica “monista”: não há senão uma única substância ou essência – a divina -; e ademais “emanatista” ou “processionista”: como só há uma essência, os seres e mundos são “emanações” ou “processões” suas (2), portanto.
Na teologia boehmiana, Deus compreende um duplo aspecto: imanifesto e manifesto. Deus imanifesto (ou Deidade) é denominado Abismo ou Sem-Fundo (“Ungrund”) (3), Absoluto além da essencialidade, e de qualquer determinação e expressão lógico-linguística, parecendo um calmo e sereno Nada ou Não-Ser, chamado também de “primeiro temperamentum” (equilíbrio); neste Nada, há apenas a Trindade não-revelada, e um princípio de manifestação: Sofia ou a Sabedoria Divina (4). Já em seu aspecto manifesto, Deus é compreendido em três pessoas distintas, mas unas, em uma Trindade: 1) Deus Pai: Vontade original; 2) Deus Filho: Vontade original apreendida num lugar, Palavra ou Coração de Deus: 3) Deus Espírito Santo: Espírito ou Vida da Palavra apreendida. Boehme costuma comparar a Trindade ao Fogo, Luz e Éter.
Esta (auto)manifestação divina, na dialética do Fundo e do Sem-Fundo, só atinge seu auge no Mundo de Luz, aonde a Trindade é realmente revelada, num novo nível teo-ontológico. Das Trevas sempternas, Deus “nasceu” para Si mesmo, autoconhecendo-se na processualidade dialética de Sua manifestação, tornando o em-si um para-si.
E a Filosofia-da- Natureza (“Naturphilosophie”)? No Sem-Fundo, há não-revelado o que Boehme chama de “Mysterium Magnum”: um princípio de separação de Deus e Natureza, responsável pela diferenciação do Uno, sem que este perca sua unidade, dando sua força e virtude à multiplicidade (5). Este “Mysterium Magnum” tem sua revelação, e dele se origina o “centrum naturae” (centro da natureza), do qual deriva por sua vez a Roda da Natureza eterna. Esta Natureza eterna, da qual a natureza física é uma degradação, opera segundo uma dialética setenária, denominada “sete propriedades, espíritos ou formas naturais”:
a) adstringência, atração, sal, Saturno;
b) amargor, expansão, Mercúrio;
c) angústia, luta, enxofre, Marte;
d) relâmpago, fogo, “Fiat Lux”;
e) luz suave, amor, Vênus;
f) som, tom, Júpiter;
e g) corporalidade, tangibilidade, Lua.
Este setenário pode ser decomposto em outros dois ternários, mediados pelo fogo (d):
Saturno, Mercúrio, Marte –atribuíveis ao Pai, Filho e Espírito Santo-; e Vênus [Marte transmudado], Júpiter [Mercúrio transmudado], Lua [Saturno, transmudado]- equivalem à revelação da Trindade no Mundo de Luz.
Assim como Boehme nos pede para vermos as três pessoas da Trindade como um só ser, co-extensivo e sem sucessão, pede para vermos também as formas da Natureza sem ordem ou sucessão, e todas atuando e se combinando juntas; tal divisão é feita apenas para facilitar a nosso entendimento finito a compreensão. Em outras palavras, as sete formas equivalem a um ‘élan vital’, sem início ou fim.
Podemos agora falar propriamente da cosmologia boehmiana.
Boehme organiza o universo em três gerações, princípios ou essências divinas:
1º) Mundo de Fogo, Trevas, Cólera Divina, ou Inferno: base ou raiz do Fogo, o qual é transformado em Luz, é o Inferno apenas nas criaturas e seres que se afastaram de Deus, como Lúcifer e os demônios;
2º) Mundo de Luz, Paradisíaco ou Coração de Deus: mundo das almas e anjos bons, é criado a partir do Fogo, e equivale a um “segundo temperamentum”(equilíbrio);
e 3º) Mundo terreno, externo ou extrageração: nosso mundo material, com seus astros e elementos (água, fogo, ar, terra, mais a quintessência oculta), oscila entre o primeiro e segundo princípios, até o Juizo Final.
Pensando na Trindade, podemos dizer: o primeiro princípio corresponde a Deus Pai, ie., ao Deus colérico; o segundo princípio, a Deus Filho, que suaviza a cólera do Pai, com seu Amor, fazendo dela a Luz; e o terceiro princípio, a Deus Espírito Santo, que criou este mundo, em sua matriz aquática, a partir do mundo paradisíaco.
Já pensando nas formas da natureza, podemos estabelecer, mas lembrando-se de que não se trata de uma divisão exata e estanque: 1. Mundo de Fogo: corresponde formas a, b, c [e d]; 2. Mundo de Luz: corresponde formas e, f, g; e 3) Mundo externo: forma d, o fogo (6).
Quanto às correspondências estabelecidas acima, vale destacar esta observação do próprio Boehme:
“(...) pois Deus não teve início algum. Vou no entanto expor as coisas como se Ele tivesse tido um início, a fim de que possa compreender o que Ele é no primeiro princípio e também seja possível conceber as diferença que há entre o primeiro e segundo princípios, bem como o que Deus ou o Espírito é. Na verdade, em Deus não há diferença alguma. Só quando se procura saber de onde vem o mal e o bem, deve-se saber o que é a primeira e original fonte da cólera, assim como a do amor , visto que ambos têm a mesma origem, a mesma mãe, e são uma única coisa. Estamos falando de maneira criatural...” . (in: “Os três princípios da essência divina”, Polar, p. 27). [7]
Cada ente, criatura, objeto, signo verbal manifestos no mundo visível e no invisível, traz em si a imagem da Trindade e das sete formas, e conforme seu nível de realidade, em maior ou menor grau; Deus conseqüentemente está em tudo e em todos. Mas nem todos estão em Deus...O Homem original (Adão), outrossim chamado de “príncipe angélico”, era a perfeita imagem de Deus, pois foi criado como tal, mas “manchou” esta imagem, ao cair do Paraíso.
Este ponto da Queda adâmica é relevante, pois para compreender-se a teologia e cosmologia de Boehme, é necessário não esquecer de sua alquimia e escatologia, bem como de sua ética e psicologia, aonde se insinua um “dualismo” (mas não-substancial, diferente portanto dos gnósticos e similares).
Segundo Boehme, este mundo terreno-natural, e este homem decaído, oscilam entre o Bem e o Mal, a Luz e o Fogo, o Céu e o Inferno, numa dualidade dramática e vertiginosa. Como se originou o Mal?
Lúcifer (o primeiro e formoso príncipe angélico) foi criado por Deus para ser regente do “locus” deste mundo, junto ao Amor divino. Todavia, Lúcifer desviou-se da Vontade de Deus, tomado de soberba, cobiça e orgulho, e dirigiu-se para a matriz colérica do Fogo, desejando com isso usurpar o poder de Deus, e se tornar maior do que Ele; porém, ao fazê-lo, inflamou suas essências, envenenou as formas deste mundo, e caiu no Inferno da Cólera de Deus – junto com os anjos rebeldes e conspiradores-, aonde estará para sempre exilado da Luz de Deus, por seu livre ato (8). Mais tarde, com inveja de Adão (Homem), o qual foi colocado por Deus em seu antigo lugar, como novo príncipe angélico, Lúcifer ou a Serpente maligna resolveu tentar à Adão, e teve êxito neste afã, fazendo-o cair na matéria, tomado da cobiça e do amor de si mesmo que Lúcifer soprou nele.
Tudo aparentava sem esperança para o mundo e o Homem. No entanto, como este não tinha destruído totalmente sua imagem divina – como ocorreu com Lúcifer, inimigo de Deus, dos anjos bons e do Homem -, se apiedou dele Coração de Deus, e na geração astral criou um novo e terceiro príncipe angélico –Jesus Cristo ou o Novo Adão-, cuja missão era penetrar no mundo e na humanidade, e dar a esta uma nova possibilidade de libertação e salvação.
Jesus Cristo esmagou a cabeça da Serpente, subjugou o poder da Morte e do Inferno, e levará o Homem – através de uma transfiguração alquímica – de volta ao Mundo de Luz e ao Amor de Deus, após o Juízo Final, bastando somente que este imite a vida e a morte de Cristo, espiritualmente falando; já Lúcifer e seus anjos maus, assim como os homens ímpios e cegos à redenção em Cristo, viverão eternamente no Inferno, aonde se lançaram livremente e contra a Vontade de Deus. Há então em perigo para cada homem.
Os homens humildes, pios, honestos, que entregaram seu coração e atos ao Coração de Deus, verão despontar a aurora e o tempo do lírio, plantado sobre o solo deste mundo; e os homens coléricos, orgulhosos, invejosos e luxuriosos, que assim corrompem e inflamam suas essências, como Lúcifer, já vivem no Inferno, sem saber disso, e aí ficarão para sempre.
Falta comentar a forma mitopoética dos escritos de Boehme.
Os personagens, passagens, símbolos contidos nas Escrituras Sagradas ganham em Boehme um sentido metafísico-transcendental, unindo à mitologia cristã um sistema lógico-filosófico rigoroso, e fazendo da filosofia uma maravilhosa epopéia do Espírito divino. Entre metáforas belas e poderosas, Boehme salta o brado convicto e emocionado do profeta, sendo talvez o último grande filósofo a ter ao lado da ciência, o cajado de Moisés ou Davi...
****
NOTAS:
1. As idéias de Boehme influenciariam mais tarde a Filosofia-da-Natureza do Romantismo alemão, em especial F. Von Baader e F. Schelling, assim como o racionalista G. Hegel.
Cf. “A filosofia alemã”, M. Dupuy, Edições 70, p. 50 ss.; “História da filosofia”, J. Marías, Souza e Almeida, p. 468; “Contribuição para história da filosofia e da religião da Alemanha”, H. Heine, Iluminuras, p. 70; “O Esoterismo”, P. Riffard, Mandarim, p. 91, p. 622 ss.; “O homem e a natureza”, S. H. Nasr, Zahar, pp. 74-75, p. 109; “El assalto lá Rázion”, G. Lukacs, Fondo de Cultura, p. 111; “Spinoza et lê problème de l ‘ expression”, G. Delleuze, Les Éditions de Minuit, p. 14; "O ocultismo", W. Janzen, Vozes; "A poética do devaneio", G. Bachelard, Martins Fontes; "A literatura alemã", O. M. Carpeaux, s/e;" Homens .representativos", R. W. Emerson, Ediouro, pp.17, 31-32, 50-51, 59, 74, 77.
2. Nem sempre é simples diferenciar “monismo”, “emanatismo”, “processionismo” etc. Encontramos elementos similares a Boehme em Plotino, na dita “teologia negativa” (Pseudo-Dionísio, Eckhart, N. Cusa), e na Cabalá teosófica (“O Zohar”), contudo, Boehme é diferente dos mesmos ao combinar um certo “dualismo” [mas não o gnóstico] com uma afirmação radical do tempo, como o fará mais tarde G. Hegel.
Cf. “A mística judaica”, G. Scholem, Perspectiva, p. 207 ss. E p. 283; “As Enédas”, Plotino, Polar (Enéadas V 2, V 1, VI 9); “O Zohar: livro do esplendor”, A. Bension (org.), Polar; “Dicionário de Esoterismo”, P. Riffard, Teorema, verbetes: panteísmo, Deidade, Deus, Grund, Nada, emanação; “Dicionário de filosofia”, J. F.Mora, Martins Fontes, verbete: emanatismo. Artigos especializados: “A processão em Plotino”, R. A. Ulmann, Revista Brasileira de Filosofia, n 183, p. 280 ss.; “Deus presente e Deus futuro em R. M. Rilke”, R. C. Czerna, Revista Brasileira de Filosofia, n 12, p. 613 ss; "Theosophy and Antroposophy in Russia" e "Boehme and russian sophiology", N. Berdiaeff, WEB..Escrito por daniel-placido às 21h36[(0) Comente] [envie esta mensagem] [link]
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3. Tomando em conta a nota 2, podemos colocar: o Sem-Fundo de Boehme corresponde aproximadamente ao Uno de Plotino, ao Deus inefável da teologia negativa, e ao “Ayn Sof aur” dos cabalistas judeus.
4. A Sabedoria divina, ou Shechiná, ou Virgem celeste, é o véu ou espelho aonde o olho de Deus contemplou antes da manifestação as idéias e arquétipos dos seres a serem criados.
5. Poderíamos imaginar Boehme como "panteísta", mas sua insistência em separar Deus Sem-Fundo e Natureza, no "MyteriuMagnum", não o permite. Boehme insiste na presença de Deus no mundo e em tudo, mas sem se confundir com estes, como água e óleo podem estar presentes no mesmo lugar, sem se misturarem.
6. Tanto é possível colocar o fogo (forma d) correspondendo ao Mundo de Fogo, primeiro princípio, como exclusivamente ao Mundo terreno, terceiro princípio.
7. Além da obra citada agora, estas são as outras obras básicas de Jacob Boehme consultadas por nós: "Mysterium Magnum", Tomo I, Editions Ahujourd Hui, trad. e intrudção de N. Berdiaeff; “Clavis”, Internet; “Aurora Nascente”, Paulus; “As 40 questões sobre a alma”, Polar; “A grande revelação do mistério divino”, contendo os tratados O verdadeiro arrependimento, Sobre a Contemplação divina, Mysterium pansophicum, e de A. D. Freher, Os princípios de J. Boehme, e Analogia entre Cristo e a pedra filosofial, Polar; “A sabedoria divina”, contendo biografia, um estudo de A. Mickiewickz, o tratado Sobre a vida supra-sensível, Diálogo entre uma alma renascida e uma não-renascida etc., pela Attar.
E os estudos: “Jacob Boehme: vida e obra”, F. Hartmann, Internet; “Ciência, sentido e evolução: a cosmologia de Jacob Boehme”, de B. Nicolescu, com texto Os seis pontos teosóficos, de Boehme, como apêndice, pela Attar; "A senda do homem celeste", J. G. Gicthel, discípulo de Boehme, Polar; e “O conhecimento iniciático”, R. Steiner, Antroposófica. Para uma consulta sobre as cosmogonias tradicionais, Cf. "Os diferentes níveis de realidade", P. Paul, Polar.
8. Por que Deus não pode “perdoar” Lúcifer? Primeiro, isto tiraria o valor da Justiça divina; e segundo, e sobretudo, Deus não pode faze-lo, pois o Fogo ou Cólera é sua potência e um aspecto de Seu Ser, que só se torna Mal nas criaturas como Lúcifer, que separaram deliberadamente o Fogo da Luz, caindo no Mundo de Trevas livremente.
Blog antigo I: Antroposofia: uma introdução
Nesta e nas próximas postagens, vou aproveitar textos que escrevi no meu antigo Blog, Parzival (http://parzival.zip.net/), e que ainda julgo aproveitáveis.
Antroposofia: uma introdução – Daniel R. Placido
(Escrito em setembro de 2005)
Ao antropósofo B. T. Sixel, pelas correções e sugestões oferecidas.
1.O que é?
“Antroposofia”, termo usado já na Renascença (H. Kunrath) e encontrado na obra de E. H. Fichte (o filho), significa, do grego, SABEDORIA DO SER HUMANO; foi criada pelo filósofo e esoterista austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), do qual falaremos mais adiante.
Rudolf Steiner (1861-1925)
A Antroposofia, ou Ciência Espiritual Antroposófica, permite uma elaboração de uma concepção do mundo (WELTANSCHAUUNG) erigida sobre três pilares: 1º. rigor científico; 2º. a espiritualidade como fator objetivo; e 3º. a entidade do Cristo esotérico-cósmico.
A Antroposofia propõe-se: primeiro, a reunir ciência e espiritualidade, dois pólos divorciados na âmago da civilização e alma modernas; segundo, “a levar o espírito que está no homem em direção ao Espírito cósmico”; terceiro, a ser uma mensagem universal do Cristo cósmico e, simultaneamente, correspondente a época moderna.
Doutro ângulo de enfoque, podemos dizer: a Antroposofia, ou a Rosacruz moderna (S. Prokofieff), se propõe a “compreender e realizar as intenções do Cristo Vivo na Terra, sob as formas perfeitas da sabedoria (ciência), do belo (arte), e do bom (ética)”.
2. Vida de Rudolf Steiner
Steiner nasceu em Krajelvc, atual Croácia; outrora essa cidade pertencia ao Império Austro-húngaro.
Relativamente desfavorecido em termos materiais, filho de um modesto funcionário das estradas-de-ferro austro-húngaros, não seria demasiado fácil a Steiner realizar seus estudos básicos e superiores; ele desde cedo apresentou uma inteligência aguda e penetrante, se destacando com brilho nos estudos e revelando uma rara disposição para a ciência e a filosofia – muito criança se fascinou com a geometria, e apenas com 14 anos já lia Kant sozinho.
Steiner completou seus estudos superiores na Academia Técnica de Viena. Ainda na faculdade, com meros 21 anos, foi-lhe confiada, por meio do seu professor, o eminente goetheanista, Karl Julius Schröer, a tarefa de editar os escritos científico-naturais de Goethe, autor ao qual se dedicava desde os 18 anos e cujo impacto foi profundo, decisivo e duradouro sobre a fisionomia espiritual e intelectual de Steiner; nessa época, com efeito, poderíamos concebê-lo como um ardoroso “goetheano”.
Anos mais tarde, Steiner vem a integrar o prestigiado grupo de comentaristas e estudiosos goetheanos, no Arquivo Goethe-Schiller, em Weimar; nesse círculo conhece e freqüenta muitas personalidades do mundo filosófico, científico e artístico alemão da época. Do período aqui aludido, data outrossim o doutoramento de Steiner em filosofia, cuja tese defendida sai um ano mais tarde sob o título de “Verdade e Ciência”, livro de considerações epistemológicas; adiante, Steiner publica seu livro “A Filosofia da Liberdade”, obra capital demarcando sua maturidade e autonomia intelectuais. Por esta época casa-se com Anna, viúva Eunicke – anos depois, já falecida Anna, Steiner se casa pela segunda vez, agora com Marie von Sivers.
Mudando-se subseqüentemente para Berlim, Steiner é aí co-editor de um relevante periódico literário; conferencista solicitado; docente em uma escola para operários, etc. Em Berlim, sendo este o acontecimento biográfico mais importante dessa fase de sua vida, Steiner é introduzido no círculo da Teosofia, aonde lhe é possível expor a Antroposofia, ainda em etapa embrionária. Decorrente do êxito das suas conferências e idéias, Steiner integra e preside a recém-criada Sociedade Teosófica na Alemanha. No âmbito da Teosofia, Steiner desenvolve intensa atividade: realiza inúmeras palestras e ciclos de conferências pela Europa, divulgando a sua Antroposofia; publica os livros antroposóficos básicos – “Teosofia”, “A iniciação”, “A ciência oculta” - ; dirige representações artísticas, etc.
Em 1912-1913, um conflito interno leva Steiner a deixar a Sociedade Teosófica; veio a lume as divergências entre a Antroposofia, enfática quanto a entidade cósmica do Cristo e a ciência, portanto ocidental, e o teosofismo, baseado em um orientalismo eclético e em métodos de trabalho não-científicos. Fora da ST, Steiner funda, junto aos colaboradores e discípulos mais assíduos, a primeira Sociedade Antroposófica; aí continua e alarga as tarefas de conferencista, escritor, artista, etc; é criado um movimento antroposófico de escala geral internacional. Para ser o edifício-sede da SA Steiner e colaboradores projetam, em Dornach-Suíça, o primeiro “Goetheanum”, em estilo arquitetônico inovador, sendo uma inconfundível homenagem e tributo a Goethe; esse edifício é destruído em 1923, por um incêndio criminoso.
Os últimos anos de vida de Steiner evidenciam um tensão dolorosa entre dificuldades consideráveis e êxitos surpreendentes. Há o desgosto terrível de ver o “Goetheanum”, trabalho de muitos e irrecuperáveis anos, ardendo em chamas; a manifestação de problemas internos no movimento antroposófico; as hostilidades externas - Steiner chega a sofrer um atentado - ; e, enfim, a doença sobrevindo. Em contrapartida, Steiner desenvolve uma atividade infindável e prodigiosa; cria algumas das derivações práticas da Antroposofia; refunda a Sociedade Antroposófica, reformulada e agora acrescida do nome “Geral” (1923); projeta o segundo “Gotheanum”, a ser acabado após sua morte, etc.
Steiner morre em 1925, em Dornach.
3. A obra de Rudolf Steiner
A obra completa de Steiner (GA), traduzida para vários idiomas e conhecida no mundo todo, consiste em mais de 300 volumes, parcela dos quais sendo o resultado da transcrição de cerca de 6000 conferências feitas por Steiner em vida; não tão-somente a quantidade, mas a originalidade, exatidão, amplitude e rigor desta obra são impressionantes, abarcando praticamente todos os campos do conhecimento e da atividade humanas, de Buda à medicina.
Uma isenta análise da extensão, profundidade e vigor da obra de Steiner é o suficiente para enquadrá-lo no rol dos grandes pensadores de todos os tempos, e reconhecer a Antroposofia como uma das grandes criações do espírito humano, e fazer de Steiner uma espécie de Platão ou Aristóteles em nossa tempo. Isso contrasta face o escasso reconhecimento dado a Steiner por parte dos filósofos e cientistas “oficiais”, os quais, amiúde, se dão ao luxo de descartá-lo sem mais nem menos, quando muito taxando-o de “místico visionário”. Ora, Steiner foi antes de tudo e sempre, UM HOMEM DE CIÊNCIA, como tal pensando, escrevendo e falando, e tal é, justamente, a razão de sua obra merecer o crédito de inumeráveis pessoas no mundo inteiro, muitas das quais destacadas e respeitadas em suas respectivas áreas de atuação – cientistas, artistas, filósofos, etc. Reconhecimento? Talvez este venha algum dia; mas Steiner não esperava-o, sendo para ele infinitamente mais importante a difusão e a prática da Antroposofia, em sua busca de espiritualizar o Homem e a Terra.
4. Práticas antroposóficas
Estes são alguns impulsos prático-espirituais nascidos da obra de Steiner; eles estão semeados, espalhados e reconhecidos mundo afora, levando a Antroposofia ao âmbito social:
-eurritimia, nova arte do movimento, também aplicada pedagógica e terapeuticamente;
-pedagogia curativa: empregada no tratamento de crianças com deficiências mentais;
-pedagogia Waldorf: famoso modelo de educação humanística;
-medicina antroposófica: ampliação da medicina tradicional;
-tri-membração do organismo social: proposta de autonomia entre as
esferas espiritual, estatal jurídica e econômica na sociedade;
-agricultura biodinâmica: a agricultura como uma atividade viva e integradora espiritualmente do homem e a natureza;
-comunidade de cristãos: movimento religioso difundida no mundo inteiro, nascido fora do contexto antroposófico propriamente dito.
Outros: farmacologia Weleda, arquitetura antroposófica, dicção etc.
5. Antroposofia e seus atributos
Resumindo por alto, estes são os atributos da Antroposofia, logo abaixo, a qual está sob a orientação da Sociedade Antroposófica, com sucursais e membros em diversos países.
A Antroposofia é:
a) abrangente;
b) conceitual;
c) espiritual;
d) antropocêntrica;
e) tem com essencial o desenvolvimento espiritual;
f) tem com essencial o desenvolvimento da consciência, autoconsciência, individualidade e liberdade;
g) pública e aberta;
h) embasada na evolução histórica,
i) renovadora da pesquisa científica;
j) tem com essencial a liberdade como verdadeiro alvo do desenvolvimento moral.
2. A Antroposofia NÃO é:
a)misticismo;
b) religião;
c) não emprega mediunismo;
d) sexista, racista, nacionalista, etnicista, classista;
e) moralista;
f) dogmática;
g) seita nem “secreta”;
h) sociedade fechada.
6. Pensamento de Steiner: de Goethe à Antroposofia
Steiner foi, antes de mais nada, o mais profícuo, brilhante e original intérprete de Goethe, não se restringindo apenas a glosá-lo, e sim organizando e complementando seu pensamento; Goethe, além de grande poeta, era filósofo e cientista.
O contributo de Steiner em relação a Goethe pode ser resumido, grosso modo, nisto:
a) demonstrar que a obra científica de Goethe, longe de se reduzir a descobertas e intuições isoladas - como o achado do osso intermaxilar e a criação da doutrina das cores -, ou , como queriam uns e outros, a um reles DILETANTISMO nebuloso, é, ao contrário, empresa da mais alta envergadura científica, produto de uma mente poderosa, criador de um novo método cientifico, constituindo uma revolução nas ciências naturais e um contraponto ao materialismo nessas instalado;
b) b) Goethe, pela amplidão e universalidade de seu espírito, é o modelo do sábio esoterista: aquele que sabe o segredo de estabelecer o não-saber antes de qualquer juízo.
Contra o mecanicismo e o fisicalismo nas ciências naturais, Goethe postulava ser necessário pensar o mundo orgânico tal como deve ser, ou seja, ORGANICAMENTE, por conseguinte, de forma irredutível à lógica mecânica de decompor/justapor o todo e suas partes, igual se pensava o mundo inorgânico; complementando essas proposições sobre a vida, epistemologicamente Goethe propunha combinar pesquisa empírica e idealismo objetivo, entender o pensar como ÓRGÂO DE PERCEPÇÂO de idéias e conceitos, o “tipo” como estruturador ideativo da espécie, e assim por diante.
Ao resgatar Goethe, Steiner tinha um objetivo claro: combater o materialismo e o positivismo reinantes tanto na Alemanha como no mundo filosófico-científico europeu e extra-europeu do segundo quartel do séc. 19; de um lado, somente Goethe parecia insuficiente para fazê-lo e, do outro, a reação neo-kantina parecia anacrônica e presa ao próprio positivismo. O que fazer?
Havia um ponto aonde o próprio Goethe não tinha deveras progredido em suas reflexões; qual? Goethe dominava e aplicava o seu método cientifico, mas não havia desenvolvido-o cientificamente Ele tinha uma aversão do “pensar sobre pensar”(autofundação reflexiva em Fichte). Nesse ponto Steiner enxergou um caminho fecundo e inexplorado para salvar a ciência da infecção materialista e, também, demarcou sua fronteira de “goetheano” para pensador autônomo; isso levaria-o da ciência natural ao problema do conhecimento e à epistemologia, retornando a Kant, e à ética fichteana, doutrina científica da liberdade, e daí para outros caminhos.
Observando o próprio pensar, Steiner reconhece que o pensar sem dúvida é ativo, sua atividade porém não é a da simples REPRESENTAÇÂO idealista, e sim a de PERCEBER A ATIVIDADE das idéias e conceitos, cuja existência é subjetiva-objetiva, real e independente do homem e de sua faculdade representativa; em outras palavras, a consciência pensante é o “palco” onde se apresentam as essências, em si e por si mesmas. Ainda muito jovem Steiner já vislumbrara essa via nova, quando reformulou a Doutrina-da-ciência de Fichte (pai), completando “O Eu põe o Eu”:para “O Eu põe a cognição”.
Superando tanto o antigo dualismo platônico quanto a (nova) dualidade kantiana – “coisa-em-si” e “coisa-para-mim”, “razão pura” e “razão prática” -, Steiner encontraria no pensar uma ponte assaz firme como elo entre o mundo espiritual das idéias e o mundo evidente aos sentidos exteriores, conformando uma unidade indissociável - vale dizer, entre o mundo do pensar e o mundo da experiência, o "eu”(Eu) e o mundo exterior dos sentidos. E mais. estabeleceria o sentido preciso da liberdade humana, sufocada nas abstrações materialistas.
O “Eu” dotado de autonomia e autoconsciência, concentrado sobre o próprio pensar, insubmisso a qualquer autoridade externa e maduro em sua cognição é fundamentalmente LIVRE, por ser capaz de determinar as leis de seu agir e querer, para além de quaisquer determinismo e teleologismo.
Dessas teses e idéias seria extraída a base filosófico-científica da Antroposofia/Ciência Espiritual, ainda que daquelas não se possa deduzir logicamente esta; aqui apenas aludiremos ao percurso da filosofia à Antroposofia.
Quando o espírito contemplante observa na Idéia universal um conceito, por exemplo, o de “círculo”, o qual se vê com os olhos desenhado em uma lousa, compreendemos o seguinte: o conceito não é causado nem derivado da experiência evidente aos sentidos exteriores – contrariando o empirista -, e tampouco se trata de uma representação subjetiva; percebe-se através do pensar o CONCEITO do círculo, o qual não pode advir da experiência comum, isto é.dos dados evidentes aos sentidos exteriores – mas sim do pensar que concebe em experiência superior que todos os pontos da linha curva são eqüidistantes de um ponto central obtendo o conceito, a lei de um círculo perfeito, que como tal é universal, mas no ato da concepção é individualizado e torna-se representação da alma, isto é subjetivo. Diferenciar representação e conceito e um feito absolutamente novo de Rudolf Steiner.
Para Steiner, o pensamento objetivo, autoeducado e exato, VIVENCIADO COM A FORÇA DA ALMA, conduz ao mundo das essências espirituais, isto é, ao mundo espiritual. Esse mundo, “visto” pelo clarividente como uma realidade inegável, pode ser apreendido metodicamente, em analogia ao mundo natural; muda-se o “objeto” de conhecimento e o método, entretanto não o estatuto de ciência; o mundo espiritual, ao qual o homem pertence por seus pensamentos e espírito, constituídos da mesma “substância”, é tão factível (na verdade mais) de ser conhecido quanto o natural, conquanto sob os parâmetros de uma ciência espiritual. O que é necessário para tanto?
Conjugando a metodologia científico-espiritual ao desenvolvimento sadio da clarividência – quer dizer, dos ÓRGÃOS SUPRA-SENSÌVEIS DE PERCEPÇÃO, análogos aos dos sentidos físico-exteriores -, o homem pode adentrar diretamente no mundo ideativo dos arquétipos, absolutamente certo de não estar sofrendo visões, alucinações, autosugestão, devaneio etc., podendo, então, em linguagem adequada, comunicar a toda inteligência humana o que objetiva e verdadeiramente ali se passa, como um autêntico PESQUISADOR ESPIRITUAL, analogamente ao naturalista, o qual, pelo treinamento árduo da observação e do pensamento, expõe ao leigo em ciência naturais as leis, características e pormenores da natureza.
Daniel R. Placido
********************
Bibliografia Básica
Rudolf Steiner, Johannes Hemleben, Antroposófica
Antroposofia, ciência espiritual moderna, Rudolf Lanz, Antroposófica
Passeios através da história á luz da Antroposofia, idem, Antroposófica
A obra científica de Goethe, Rudolf Steiner, Antroposófica
Teosofia, idem, Antroposófica
Verdade e ciência, idem, Antroposófica
A filosofia da liberdade, idem, Antroposófica
A ciência oculta, idem, Antroposófica
Evangelhos de Lucas; Evangelho de Mateus: Evangelho de Marcos; Evangelho de João, idem, Antropsófica
O Quinto Evangelho, idem, Antroposófica
Cristianismo como fato místico, idem, Antroposófica
Como se adquire o conhecimento dos mundo superiores, idem, Antroposófica
O conhecimento iniciático, idem, Antroposófica
Fisiologia oculta, idem, Antroposófica
Como superar as carências da alma em nossa época, idem, Antroposófica
A educação da criança segundo a Ciência Espiritual, idem,Antroposófica
A eterização do sangue: intervenção do Cristo etérico, idem, Antroposófica
Como atua o anjo em nosso corpo astral, idem, Antroposófica
A espiritual condução do homem e da humanidade, idem, trad e ed. F. Muller
La Theoosophia Rosicruciana, idem, Epidauro
Select Works R. Steiner: Rosicrucianism, A. Welburn (org.), Floris Books
O esoterismo, Pierre A. Riffard, Mandarim
Historia da filosofia, Julían Marías, Souza e Almeida
Autofundamentação reflexiva em Fichte, apud, Para além da fragmentação, M. A. de Oliveira, Loyola
Fichte/ Kant/Schelling. Obras escolhidas, Abril cultural
Artigos:
Antroposofia, um caminho difícil, Rudolf Lanz, Planeta
Rudolf Steiner: o grande iniciado, J. Begier e E. Schumberg, Planeta
80 anos de agricultura biodinâmica, Bernardo T. Sixel, Revista ABAB
Theosophy and Antroposohy in Russia, N. Berdiaeff, WEB
Sites:
-Página da Tropis, ONG idealizada por Ralf Rickli:
www.tropis.org/biblioteca .
- "Sobre a teoria do conhecimento de Rudolf Steiner", este texto de Marcelo da Veiga Greul (Federal de Santa Catarina):
http://www.bairrodemetria.com.br/antroposofia/antroposofia.html
-"Antroposofia, ciência e religião", este texto de Waldemar Setzer (USP):
http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/carta-Reale-religiosidade.html
-Crítica de Paulo Mota (UFMG)
http://www.artnet.com.br/pmotta/textos_filosteiner.htm
-Sites antroposóficos:
www.elib.com/steiner
www.sab.org.br
http://www.rudolf-steiner.com
-Defesa de Steiner, contra boatos e acusações falsas e absurdas, circulando na Internet, que ligam Steiner a Hitler, a OTO, à Sociedade Thule, ao racismo, etc.:
http://www.defendingsteiner.com/index.php
Antroposofia: uma introdução – Daniel R. Placido
(Escrito em setembro de 2005)
Ao antropósofo B. T. Sixel, pelas correções e sugestões oferecidas.
1.O que é?
“Antroposofia”, termo usado já na Renascença (H. Kunrath) e encontrado na obra de E. H. Fichte (o filho), significa, do grego, SABEDORIA DO SER HUMANO; foi criada pelo filósofo e esoterista austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), do qual falaremos mais adiante.
Rudolf Steiner (1861-1925)
A Antroposofia, ou Ciência Espiritual Antroposófica, permite uma elaboração de uma concepção do mundo (WELTANSCHAUUNG) erigida sobre três pilares: 1º. rigor científico; 2º. a espiritualidade como fator objetivo; e 3º. a entidade do Cristo esotérico-cósmico.
A Antroposofia propõe-se: primeiro, a reunir ciência e espiritualidade, dois pólos divorciados na âmago da civilização e alma modernas; segundo, “a levar o espírito que está no homem em direção ao Espírito cósmico”; terceiro, a ser uma mensagem universal do Cristo cósmico e, simultaneamente, correspondente a época moderna.
Doutro ângulo de enfoque, podemos dizer: a Antroposofia, ou a Rosacruz moderna (S. Prokofieff), se propõe a “compreender e realizar as intenções do Cristo Vivo na Terra, sob as formas perfeitas da sabedoria (ciência), do belo (arte), e do bom (ética)”.
2. Vida de Rudolf Steiner
Steiner nasceu em Krajelvc, atual Croácia; outrora essa cidade pertencia ao Império Austro-húngaro.
Relativamente desfavorecido em termos materiais, filho de um modesto funcionário das estradas-de-ferro austro-húngaros, não seria demasiado fácil a Steiner realizar seus estudos básicos e superiores; ele desde cedo apresentou uma inteligência aguda e penetrante, se destacando com brilho nos estudos e revelando uma rara disposição para a ciência e a filosofia – muito criança se fascinou com a geometria, e apenas com 14 anos já lia Kant sozinho.
Steiner completou seus estudos superiores na Academia Técnica de Viena. Ainda na faculdade, com meros 21 anos, foi-lhe confiada, por meio do seu professor, o eminente goetheanista, Karl Julius Schröer, a tarefa de editar os escritos científico-naturais de Goethe, autor ao qual se dedicava desde os 18 anos e cujo impacto foi profundo, decisivo e duradouro sobre a fisionomia espiritual e intelectual de Steiner; nessa época, com efeito, poderíamos concebê-lo como um ardoroso “goetheano”.
Anos mais tarde, Steiner vem a integrar o prestigiado grupo de comentaristas e estudiosos goetheanos, no Arquivo Goethe-Schiller, em Weimar; nesse círculo conhece e freqüenta muitas personalidades do mundo filosófico, científico e artístico alemão da época. Do período aqui aludido, data outrossim o doutoramento de Steiner em filosofia, cuja tese defendida sai um ano mais tarde sob o título de “Verdade e Ciência”, livro de considerações epistemológicas; adiante, Steiner publica seu livro “A Filosofia da Liberdade”, obra capital demarcando sua maturidade e autonomia intelectuais. Por esta época casa-se com Anna, viúva Eunicke – anos depois, já falecida Anna, Steiner se casa pela segunda vez, agora com Marie von Sivers.
Mudando-se subseqüentemente para Berlim, Steiner é aí co-editor de um relevante periódico literário; conferencista solicitado; docente em uma escola para operários, etc. Em Berlim, sendo este o acontecimento biográfico mais importante dessa fase de sua vida, Steiner é introduzido no círculo da Teosofia, aonde lhe é possível expor a Antroposofia, ainda em etapa embrionária. Decorrente do êxito das suas conferências e idéias, Steiner integra e preside a recém-criada Sociedade Teosófica na Alemanha. No âmbito da Teosofia, Steiner desenvolve intensa atividade: realiza inúmeras palestras e ciclos de conferências pela Europa, divulgando a sua Antroposofia; publica os livros antroposóficos básicos – “Teosofia”, “A iniciação”, “A ciência oculta” - ; dirige representações artísticas, etc.
Em 1912-1913, um conflito interno leva Steiner a deixar a Sociedade Teosófica; veio a lume as divergências entre a Antroposofia, enfática quanto a entidade cósmica do Cristo e a ciência, portanto ocidental, e o teosofismo, baseado em um orientalismo eclético e em métodos de trabalho não-científicos. Fora da ST, Steiner funda, junto aos colaboradores e discípulos mais assíduos, a primeira Sociedade Antroposófica; aí continua e alarga as tarefas de conferencista, escritor, artista, etc; é criado um movimento antroposófico de escala geral internacional. Para ser o edifício-sede da SA Steiner e colaboradores projetam, em Dornach-Suíça, o primeiro “Goetheanum”, em estilo arquitetônico inovador, sendo uma inconfundível homenagem e tributo a Goethe; esse edifício é destruído em 1923, por um incêndio criminoso.
Os últimos anos de vida de Steiner evidenciam um tensão dolorosa entre dificuldades consideráveis e êxitos surpreendentes. Há o desgosto terrível de ver o “Goetheanum”, trabalho de muitos e irrecuperáveis anos, ardendo em chamas; a manifestação de problemas internos no movimento antroposófico; as hostilidades externas - Steiner chega a sofrer um atentado - ; e, enfim, a doença sobrevindo. Em contrapartida, Steiner desenvolve uma atividade infindável e prodigiosa; cria algumas das derivações práticas da Antroposofia; refunda a Sociedade Antroposófica, reformulada e agora acrescida do nome “Geral” (1923); projeta o segundo “Gotheanum”, a ser acabado após sua morte, etc.
Steiner morre em 1925, em Dornach.
3. A obra de Rudolf Steiner
A obra completa de Steiner (GA), traduzida para vários idiomas e conhecida no mundo todo, consiste em mais de 300 volumes, parcela dos quais sendo o resultado da transcrição de cerca de 6000 conferências feitas por Steiner em vida; não tão-somente a quantidade, mas a originalidade, exatidão, amplitude e rigor desta obra são impressionantes, abarcando praticamente todos os campos do conhecimento e da atividade humanas, de Buda à medicina.
Uma isenta análise da extensão, profundidade e vigor da obra de Steiner é o suficiente para enquadrá-lo no rol dos grandes pensadores de todos os tempos, e reconhecer a Antroposofia como uma das grandes criações do espírito humano, e fazer de Steiner uma espécie de Platão ou Aristóteles em nossa tempo. Isso contrasta face o escasso reconhecimento dado a Steiner por parte dos filósofos e cientistas “oficiais”, os quais, amiúde, se dão ao luxo de descartá-lo sem mais nem menos, quando muito taxando-o de “místico visionário”. Ora, Steiner foi antes de tudo e sempre, UM HOMEM DE CIÊNCIA, como tal pensando, escrevendo e falando, e tal é, justamente, a razão de sua obra merecer o crédito de inumeráveis pessoas no mundo inteiro, muitas das quais destacadas e respeitadas em suas respectivas áreas de atuação – cientistas, artistas, filósofos, etc. Reconhecimento? Talvez este venha algum dia; mas Steiner não esperava-o, sendo para ele infinitamente mais importante a difusão e a prática da Antroposofia, em sua busca de espiritualizar o Homem e a Terra.
4. Práticas antroposóficas
Estes são alguns impulsos prático-espirituais nascidos da obra de Steiner; eles estão semeados, espalhados e reconhecidos mundo afora, levando a Antroposofia ao âmbito social:
-eurritimia, nova arte do movimento, também aplicada pedagógica e terapeuticamente;
-pedagogia curativa: empregada no tratamento de crianças com deficiências mentais;
-pedagogia Waldorf: famoso modelo de educação humanística;
-medicina antroposófica: ampliação da medicina tradicional;
-tri-membração do organismo social: proposta de autonomia entre as
esferas espiritual, estatal jurídica e econômica na sociedade;
-agricultura biodinâmica: a agricultura como uma atividade viva e integradora espiritualmente do homem e a natureza;
-comunidade de cristãos: movimento religioso difundida no mundo inteiro, nascido fora do contexto antroposófico propriamente dito.
Outros: farmacologia Weleda, arquitetura antroposófica, dicção etc.
5. Antroposofia e seus atributos
Resumindo por alto, estes são os atributos da Antroposofia, logo abaixo, a qual está sob a orientação da Sociedade Antroposófica, com sucursais e membros em diversos países.
A Antroposofia é:
a) abrangente;
b) conceitual;
c) espiritual;
d) antropocêntrica;
e) tem com essencial o desenvolvimento espiritual;
f) tem com essencial o desenvolvimento da consciência, autoconsciência, individualidade e liberdade;
g) pública e aberta;
h) embasada na evolução histórica,
i) renovadora da pesquisa científica;
j) tem com essencial a liberdade como verdadeiro alvo do desenvolvimento moral.
2. A Antroposofia NÃO é:
a)misticismo;
b) religião;
c) não emprega mediunismo;
d) sexista, racista, nacionalista, etnicista, classista;
e) moralista;
f) dogmática;
g) seita nem “secreta”;
h) sociedade fechada.
6. Pensamento de Steiner: de Goethe à Antroposofia
Steiner foi, antes de mais nada, o mais profícuo, brilhante e original intérprete de Goethe, não se restringindo apenas a glosá-lo, e sim organizando e complementando seu pensamento; Goethe, além de grande poeta, era filósofo e cientista.
O contributo de Steiner em relação a Goethe pode ser resumido, grosso modo, nisto:
a) demonstrar que a obra científica de Goethe, longe de se reduzir a descobertas e intuições isoladas - como o achado do osso intermaxilar e a criação da doutrina das cores -, ou , como queriam uns e outros, a um reles DILETANTISMO nebuloso, é, ao contrário, empresa da mais alta envergadura científica, produto de uma mente poderosa, criador de um novo método cientifico, constituindo uma revolução nas ciências naturais e um contraponto ao materialismo nessas instalado;
b) b) Goethe, pela amplidão e universalidade de seu espírito, é o modelo do sábio esoterista: aquele que sabe o segredo de estabelecer o não-saber antes de qualquer juízo.
Contra o mecanicismo e o fisicalismo nas ciências naturais, Goethe postulava ser necessário pensar o mundo orgânico tal como deve ser, ou seja, ORGANICAMENTE, por conseguinte, de forma irredutível à lógica mecânica de decompor/justapor o todo e suas partes, igual se pensava o mundo inorgânico; complementando essas proposições sobre a vida, epistemologicamente Goethe propunha combinar pesquisa empírica e idealismo objetivo, entender o pensar como ÓRGÂO DE PERCEPÇÂO de idéias e conceitos, o “tipo” como estruturador ideativo da espécie, e assim por diante.
Ao resgatar Goethe, Steiner tinha um objetivo claro: combater o materialismo e o positivismo reinantes tanto na Alemanha como no mundo filosófico-científico europeu e extra-europeu do segundo quartel do séc. 19; de um lado, somente Goethe parecia insuficiente para fazê-lo e, do outro, a reação neo-kantina parecia anacrônica e presa ao próprio positivismo. O que fazer?
Havia um ponto aonde o próprio Goethe não tinha deveras progredido em suas reflexões; qual? Goethe dominava e aplicava o seu método cientifico, mas não havia desenvolvido-o cientificamente Ele tinha uma aversão do “pensar sobre pensar”(autofundação reflexiva em Fichte). Nesse ponto Steiner enxergou um caminho fecundo e inexplorado para salvar a ciência da infecção materialista e, também, demarcou sua fronteira de “goetheano” para pensador autônomo; isso levaria-o da ciência natural ao problema do conhecimento e à epistemologia, retornando a Kant, e à ética fichteana, doutrina científica da liberdade, e daí para outros caminhos.
Observando o próprio pensar, Steiner reconhece que o pensar sem dúvida é ativo, sua atividade porém não é a da simples REPRESENTAÇÂO idealista, e sim a de PERCEBER A ATIVIDADE das idéias e conceitos, cuja existência é subjetiva-objetiva, real e independente do homem e de sua faculdade representativa; em outras palavras, a consciência pensante é o “palco” onde se apresentam as essências, em si e por si mesmas. Ainda muito jovem Steiner já vislumbrara essa via nova, quando reformulou a Doutrina-da-ciência de Fichte (pai), completando “O Eu põe o Eu”:para “O Eu põe a cognição”.
Superando tanto o antigo dualismo platônico quanto a (nova) dualidade kantiana – “coisa-em-si” e “coisa-para-mim”, “razão pura” e “razão prática” -, Steiner encontraria no pensar uma ponte assaz firme como elo entre o mundo espiritual das idéias e o mundo evidente aos sentidos exteriores, conformando uma unidade indissociável - vale dizer, entre o mundo do pensar e o mundo da experiência, o "eu”(Eu) e o mundo exterior dos sentidos. E mais. estabeleceria o sentido preciso da liberdade humana, sufocada nas abstrações materialistas.
O “Eu” dotado de autonomia e autoconsciência, concentrado sobre o próprio pensar, insubmisso a qualquer autoridade externa e maduro em sua cognição é fundamentalmente LIVRE, por ser capaz de determinar as leis de seu agir e querer, para além de quaisquer determinismo e teleologismo.
Dessas teses e idéias seria extraída a base filosófico-científica da Antroposofia/Ciência Espiritual, ainda que daquelas não se possa deduzir logicamente esta; aqui apenas aludiremos ao percurso da filosofia à Antroposofia.
Quando o espírito contemplante observa na Idéia universal um conceito, por exemplo, o de “círculo”, o qual se vê com os olhos desenhado em uma lousa, compreendemos o seguinte: o conceito não é causado nem derivado da experiência evidente aos sentidos exteriores – contrariando o empirista -, e tampouco se trata de uma representação subjetiva; percebe-se através do pensar o CONCEITO do círculo, o qual não pode advir da experiência comum, isto é.dos dados evidentes aos sentidos exteriores – mas sim do pensar que concebe em experiência superior que todos os pontos da linha curva são eqüidistantes de um ponto central obtendo o conceito, a lei de um círculo perfeito, que como tal é universal, mas no ato da concepção é individualizado e torna-se representação da alma, isto é subjetivo. Diferenciar representação e conceito e um feito absolutamente novo de Rudolf Steiner.
Para Steiner, o pensamento objetivo, autoeducado e exato, VIVENCIADO COM A FORÇA DA ALMA, conduz ao mundo das essências espirituais, isto é, ao mundo espiritual. Esse mundo, “visto” pelo clarividente como uma realidade inegável, pode ser apreendido metodicamente, em analogia ao mundo natural; muda-se o “objeto” de conhecimento e o método, entretanto não o estatuto de ciência; o mundo espiritual, ao qual o homem pertence por seus pensamentos e espírito, constituídos da mesma “substância”, é tão factível (na verdade mais) de ser conhecido quanto o natural, conquanto sob os parâmetros de uma ciência espiritual. O que é necessário para tanto?
Conjugando a metodologia científico-espiritual ao desenvolvimento sadio da clarividência – quer dizer, dos ÓRGÃOS SUPRA-SENSÌVEIS DE PERCEPÇÃO, análogos aos dos sentidos físico-exteriores -, o homem pode adentrar diretamente no mundo ideativo dos arquétipos, absolutamente certo de não estar sofrendo visões, alucinações, autosugestão, devaneio etc., podendo, então, em linguagem adequada, comunicar a toda inteligência humana o que objetiva e verdadeiramente ali se passa, como um autêntico PESQUISADOR ESPIRITUAL, analogamente ao naturalista, o qual, pelo treinamento árduo da observação e do pensamento, expõe ao leigo em ciência naturais as leis, características e pormenores da natureza.
Daniel R. Placido
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Bibliografia Básica
Rudolf Steiner, Johannes Hemleben, Antroposófica
Antroposofia, ciência espiritual moderna, Rudolf Lanz, Antroposófica
Passeios através da história á luz da Antroposofia, idem, Antroposófica
A obra científica de Goethe, Rudolf Steiner, Antroposófica
Teosofia, idem, Antroposófica
Verdade e ciência, idem, Antroposófica
A filosofia da liberdade, idem, Antroposófica
A ciência oculta, idem, Antroposófica
Evangelhos de Lucas; Evangelho de Mateus: Evangelho de Marcos; Evangelho de João, idem, Antropsófica
O Quinto Evangelho, idem, Antroposófica
Cristianismo como fato místico, idem, Antroposófica
Como se adquire o conhecimento dos mundo superiores, idem, Antroposófica
O conhecimento iniciático, idem, Antroposófica
Fisiologia oculta, idem, Antroposófica
Como superar as carências da alma em nossa época, idem, Antroposófica
A educação da criança segundo a Ciência Espiritual, idem,Antroposófica
A eterização do sangue: intervenção do Cristo etérico, idem, Antroposófica
Como atua o anjo em nosso corpo astral, idem, Antroposófica
A espiritual condução do homem e da humanidade, idem, trad e ed. F. Muller
La Theoosophia Rosicruciana, idem, Epidauro
Select Works R. Steiner: Rosicrucianism, A. Welburn (org.), Floris Books
O esoterismo, Pierre A. Riffard, Mandarim
Historia da filosofia, Julían Marías, Souza e Almeida
Autofundamentação reflexiva em Fichte, apud, Para além da fragmentação, M. A. de Oliveira, Loyola
Fichte/ Kant/Schelling. Obras escolhidas, Abril cultural
Artigos:
Antroposofia, um caminho difícil, Rudolf Lanz, Planeta
Rudolf Steiner: o grande iniciado, J. Begier e E. Schumberg, Planeta
80 anos de agricultura biodinâmica, Bernardo T. Sixel, Revista ABAB
Theosophy and Antroposohy in Russia, N. Berdiaeff, WEB
Sites:
-Página da Tropis, ONG idealizada por Ralf Rickli:
www.tropis.org/biblioteca .
- "Sobre a teoria do conhecimento de Rudolf Steiner", este texto de Marcelo da Veiga Greul (Federal de Santa Catarina):
http://www.bairrodemetria.com.br/antroposofia/antroposofia.html
-"Antroposofia, ciência e religião", este texto de Waldemar Setzer (USP):
http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/carta-Reale-religiosidade.html
-Crítica de Paulo Mota (UFMG)
http://www.artnet.com.br/pmotta/textos_filosteiner.htm
-Sites antroposóficos:
www.elib.com/steiner
www.sab.org.br
http://www.rudolf-steiner.com
-Defesa de Steiner, contra boatos e acusações falsas e absurdas, circulando na Internet, que ligam Steiner a Hitler, a OTO, à Sociedade Thule, ao racismo, etc.:
http://www.defendingsteiner.com/index.php
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