Jacob Boehme: introdução -Daniel Placido
(Escrito em maio de 2007)
“(...)Jacob Boehme, em sua locanda de sapateiro em Goerlitz,
caía em êxtase perante o revérbero do sol em pratos de estanho...
Aos olhos do contemplativo, o mais comezinho objeto pode
converter-se em espelho do mundo e da alma, quando iluminado
pela luz divina”.
Georges Gusdorf, in: “Tratado de Metafísica”, Civ. Brasileira, 1959
“Os séculos passados tiravam suas idéias de sua força imaginativa...
as grandes ideologias se manifestavam em figuras, em deuses...”
J. Goethe, in: “Carta a Riemer”(1806)
Jacob Boehme (1574-1624), humilde sapateiro, se tornou um dos maiores filósofos e místicos alemães, ao erigir um dos mais complexos edifícios cosmogônicos e teogônicos da filosofia cristã, e mesmo de toda a metafísica ocidental; a mística é a alma e o ‘télos’ do seu sistema teológico-filosófico.
No lastro de Meister Eckhart e Nicolau de Cusa (1), o filósofo alemão renascentista envereda por uma metafísica “monista”: não há senão uma única substância ou essência – a divina -; e ademais “emanatista” ou “processionista”: como só há uma essência, os seres e mundos são “emanações” ou “processões” suas (2), portanto.
Na teologia boehmiana, Deus compreende um duplo aspecto: imanifesto e manifesto. Deus imanifesto (ou Deidade) é denominado Abismo ou Sem-Fundo (“Ungrund”) (3), Absoluto além da essencialidade, e de qualquer determinação e expressão lógico-linguística, parecendo um calmo e sereno Nada ou Não-Ser, chamado também de “primeiro temperamentum” (equilíbrio); neste Nada, há apenas a Trindade não-revelada, e um princípio de manifestação: Sofia ou a Sabedoria Divina (4). Já em seu aspecto manifesto, Deus é compreendido em três pessoas distintas, mas unas, em uma Trindade: 1) Deus Pai: Vontade original; 2) Deus Filho: Vontade original apreendida num lugar, Palavra ou Coração de Deus: 3) Deus Espírito Santo: Espírito ou Vida da Palavra apreendida. Boehme costuma comparar a Trindade ao Fogo, Luz e Éter.
Esta (auto)manifestação divina, na dialética do Fundo e do Sem-Fundo, só atinge seu auge no Mundo de Luz, aonde a Trindade é realmente revelada, num novo nível teo-ontológico. Das Trevas sempternas, Deus “nasceu” para Si mesmo, autoconhecendo-se na processualidade dialética de Sua manifestação, tornando o em-si um para-si.
E a Filosofia-da- Natureza (“Naturphilosophie”)? No Sem-Fundo, há não-revelado o que Boehme chama de “Mysterium Magnum”: um princípio de separação de Deus e Natureza, responsável pela diferenciação do Uno, sem que este perca sua unidade, dando sua força e virtude à multiplicidade (5). Este “Mysterium Magnum” tem sua revelação, e dele se origina o “centrum naturae” (centro da natureza), do qual deriva por sua vez a Roda da Natureza eterna. Esta Natureza eterna, da qual a natureza física é uma degradação, opera segundo uma dialética setenária, denominada “sete propriedades, espíritos ou formas naturais”:
a) adstringência, atração, sal, Saturno;
b) amargor, expansão, Mercúrio;
c) angústia, luta, enxofre, Marte;
d) relâmpago, fogo, “Fiat Lux”;
e) luz suave, amor, Vênus;
f) som, tom, Júpiter;
e g) corporalidade, tangibilidade, Lua.
Este setenário pode ser decomposto em outros dois ternários, mediados pelo fogo (d):
Saturno, Mercúrio, Marte –atribuíveis ao Pai, Filho e Espírito Santo-; e Vênus [Marte transmudado], Júpiter [Mercúrio transmudado], Lua [Saturno, transmudado]- equivalem à revelação da Trindade no Mundo de Luz.
Assim como Boehme nos pede para vermos as três pessoas da Trindade como um só ser, co-extensivo e sem sucessão, pede para vermos também as formas da Natureza sem ordem ou sucessão, e todas atuando e se combinando juntas; tal divisão é feita apenas para facilitar a nosso entendimento finito a compreensão. Em outras palavras, as sete formas equivalem a um ‘élan vital’, sem início ou fim.
Podemos agora falar propriamente da cosmologia boehmiana.
Boehme organiza o universo em três gerações, princípios ou essências divinas:
1º) Mundo de Fogo, Trevas, Cólera Divina, ou Inferno: base ou raiz do Fogo, o qual é transformado em Luz, é o Inferno apenas nas criaturas e seres que se afastaram de Deus, como Lúcifer e os demônios;
2º) Mundo de Luz, Paradisíaco ou Coração de Deus: mundo das almas e anjos bons, é criado a partir do Fogo, e equivale a um “segundo temperamentum”(equilíbrio);
e 3º) Mundo terreno, externo ou extrageração: nosso mundo material, com seus astros e elementos (água, fogo, ar, terra, mais a quintessência oculta), oscila entre o primeiro e segundo princípios, até o Juizo Final.
Pensando na Trindade, podemos dizer: o primeiro princípio corresponde a Deus Pai, ie., ao Deus colérico; o segundo princípio, a Deus Filho, que suaviza a cólera do Pai, com seu Amor, fazendo dela a Luz; e o terceiro princípio, a Deus Espírito Santo, que criou este mundo, em sua matriz aquática, a partir do mundo paradisíaco.
Já pensando nas formas da natureza, podemos estabelecer, mas lembrando-se de que não se trata de uma divisão exata e estanque: 1. Mundo de Fogo: corresponde formas a, b, c [e d]; 2. Mundo de Luz: corresponde formas e, f, g; e 3) Mundo externo: forma d, o fogo (6).
Quanto às correspondências estabelecidas acima, vale destacar esta observação do próprio Boehme:
“(...) pois Deus não teve início algum. Vou no entanto expor as coisas como se Ele tivesse tido um início, a fim de que possa compreender o que Ele é no primeiro princípio e também seja possível conceber as diferença que há entre o primeiro e segundo princípios, bem como o que Deus ou o Espírito é. Na verdade, em Deus não há diferença alguma. Só quando se procura saber de onde vem o mal e o bem, deve-se saber o que é a primeira e original fonte da cólera, assim como a do amor , visto que ambos têm a mesma origem, a mesma mãe, e são uma única coisa. Estamos falando de maneira criatural...” . (in: “Os três princípios da essência divina”, Polar, p. 27). [7]
Cada ente, criatura, objeto, signo verbal manifestos no mundo visível e no invisível, traz em si a imagem da Trindade e das sete formas, e conforme seu nível de realidade, em maior ou menor grau; Deus conseqüentemente está em tudo e em todos. Mas nem todos estão em Deus...O Homem original (Adão), outrossim chamado de “príncipe angélico”, era a perfeita imagem de Deus, pois foi criado como tal, mas “manchou” esta imagem, ao cair do Paraíso.
Este ponto da Queda adâmica é relevante, pois para compreender-se a teologia e cosmologia de Boehme, é necessário não esquecer de sua alquimia e escatologia, bem como de sua ética e psicologia, aonde se insinua um “dualismo” (mas não-substancial, diferente portanto dos gnósticos e similares).
Segundo Boehme, este mundo terreno-natural, e este homem decaído, oscilam entre o Bem e o Mal, a Luz e o Fogo, o Céu e o Inferno, numa dualidade dramática e vertiginosa. Como se originou o Mal?
Lúcifer (o primeiro e formoso príncipe angélico) foi criado por Deus para ser regente do “locus” deste mundo, junto ao Amor divino. Todavia, Lúcifer desviou-se da Vontade de Deus, tomado de soberba, cobiça e orgulho, e dirigiu-se para a matriz colérica do Fogo, desejando com isso usurpar o poder de Deus, e se tornar maior do que Ele; porém, ao fazê-lo, inflamou suas essências, envenenou as formas deste mundo, e caiu no Inferno da Cólera de Deus – junto com os anjos rebeldes e conspiradores-, aonde estará para sempre exilado da Luz de Deus, por seu livre ato (8). Mais tarde, com inveja de Adão (Homem), o qual foi colocado por Deus em seu antigo lugar, como novo príncipe angélico, Lúcifer ou a Serpente maligna resolveu tentar à Adão, e teve êxito neste afã, fazendo-o cair na matéria, tomado da cobiça e do amor de si mesmo que Lúcifer soprou nele.
Tudo aparentava sem esperança para o mundo e o Homem. No entanto, como este não tinha destruído totalmente sua imagem divina – como ocorreu com Lúcifer, inimigo de Deus, dos anjos bons e do Homem -, se apiedou dele Coração de Deus, e na geração astral criou um novo e terceiro príncipe angélico –Jesus Cristo ou o Novo Adão-, cuja missão era penetrar no mundo e na humanidade, e dar a esta uma nova possibilidade de libertação e salvação.
Jesus Cristo esmagou a cabeça da Serpente, subjugou o poder da Morte e do Inferno, e levará o Homem – através de uma transfiguração alquímica – de volta ao Mundo de Luz e ao Amor de Deus, após o Juízo Final, bastando somente que este imite a vida e a morte de Cristo, espiritualmente falando; já Lúcifer e seus anjos maus, assim como os homens ímpios e cegos à redenção em Cristo, viverão eternamente no Inferno, aonde se lançaram livremente e contra a Vontade de Deus. Há então em perigo para cada homem.
Os homens humildes, pios, honestos, que entregaram seu coração e atos ao Coração de Deus, verão despontar a aurora e o tempo do lírio, plantado sobre o solo deste mundo; e os homens coléricos, orgulhosos, invejosos e luxuriosos, que assim corrompem e inflamam suas essências, como Lúcifer, já vivem no Inferno, sem saber disso, e aí ficarão para sempre.
Falta comentar a forma mitopoética dos escritos de Boehme.
Os personagens, passagens, símbolos contidos nas Escrituras Sagradas ganham em Boehme um sentido metafísico-transcendental, unindo à mitologia cristã um sistema lógico-filosófico rigoroso, e fazendo da filosofia uma maravilhosa epopéia do Espírito divino. Entre metáforas belas e poderosas, Boehme salta o brado convicto e emocionado do profeta, sendo talvez o último grande filósofo a ter ao lado da ciência, o cajado de Moisés ou Davi...
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NOTAS:
1. As idéias de Boehme influenciariam mais tarde a Filosofia-da-Natureza do Romantismo alemão, em especial F. Von Baader e F. Schelling, assim como o racionalista G. Hegel.
Cf. “A filosofia alemã”, M. Dupuy, Edições 70, p. 50 ss.; “História da filosofia”, J. Marías, Souza e Almeida, p. 468; “Contribuição para história da filosofia e da religião da Alemanha”, H. Heine, Iluminuras, p. 70; “O Esoterismo”, P. Riffard, Mandarim, p. 91, p. 622 ss.; “O homem e a natureza”, S. H. Nasr, Zahar, pp. 74-75, p. 109; “El assalto lá Rázion”, G. Lukacs, Fondo de Cultura, p. 111; “Spinoza et lê problème de l ‘ expression”, G. Delleuze, Les Éditions de Minuit, p. 14; "O ocultismo", W. Janzen, Vozes; "A poética do devaneio", G. Bachelard, Martins Fontes; "A literatura alemã", O. M. Carpeaux, s/e;" Homens .representativos", R. W. Emerson, Ediouro, pp.17, 31-32, 50-51, 59, 74, 77.
2. Nem sempre é simples diferenciar “monismo”, “emanatismo”, “processionismo” etc. Encontramos elementos similares a Boehme em Plotino, na dita “teologia negativa” (Pseudo-Dionísio, Eckhart, N. Cusa), e na Cabalá teosófica (“O Zohar”), contudo, Boehme é diferente dos mesmos ao combinar um certo “dualismo” [mas não o gnóstico] com uma afirmação radical do tempo, como o fará mais tarde G. Hegel.
Cf. “A mística judaica”, G. Scholem, Perspectiva, p. 207 ss. E p. 283; “As Enédas”, Plotino, Polar (Enéadas V 2, V 1, VI 9); “O Zohar: livro do esplendor”, A. Bension (org.), Polar; “Dicionário de Esoterismo”, P. Riffard, Teorema, verbetes: panteísmo, Deidade, Deus, Grund, Nada, emanação; “Dicionário de filosofia”, J. F.Mora, Martins Fontes, verbete: emanatismo. Artigos especializados: “A processão em Plotino”, R. A. Ulmann, Revista Brasileira de Filosofia, n 183, p. 280 ss.; “Deus presente e Deus futuro em R. M. Rilke”, R. C. Czerna, Revista Brasileira de Filosofia, n 12, p. 613 ss; "Theosophy and Antroposophy in Russia" e "Boehme and russian sophiology", N. Berdiaeff, WEB..Escrito por daniel-placido às 21h36[(0) Comente] [envie esta mensagem] [link]
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3. Tomando em conta a nota 2, podemos colocar: o Sem-Fundo de Boehme corresponde aproximadamente ao Uno de Plotino, ao Deus inefável da teologia negativa, e ao “Ayn Sof aur” dos cabalistas judeus.
4. A Sabedoria divina, ou Shechiná, ou Virgem celeste, é o véu ou espelho aonde o olho de Deus contemplou antes da manifestação as idéias e arquétipos dos seres a serem criados.
5. Poderíamos imaginar Boehme como "panteísta", mas sua insistência em separar Deus Sem-Fundo e Natureza, no "MyteriuMagnum", não o permite. Boehme insiste na presença de Deus no mundo e em tudo, mas sem se confundir com estes, como água e óleo podem estar presentes no mesmo lugar, sem se misturarem.
6. Tanto é possível colocar o fogo (forma d) correspondendo ao Mundo de Fogo, primeiro princípio, como exclusivamente ao Mundo terreno, terceiro princípio.
7. Além da obra citada agora, estas são as outras obras básicas de Jacob Boehme consultadas por nós: "Mysterium Magnum", Tomo I, Editions Ahujourd Hui, trad. e intrudção de N. Berdiaeff; “Clavis”, Internet; “Aurora Nascente”, Paulus; “As 40 questões sobre a alma”, Polar; “A grande revelação do mistério divino”, contendo os tratados O verdadeiro arrependimento, Sobre a Contemplação divina, Mysterium pansophicum, e de A. D. Freher, Os princípios de J. Boehme, e Analogia entre Cristo e a pedra filosofial, Polar; “A sabedoria divina”, contendo biografia, um estudo de A. Mickiewickz, o tratado Sobre a vida supra-sensível, Diálogo entre uma alma renascida e uma não-renascida etc., pela Attar.
E os estudos: “Jacob Boehme: vida e obra”, F. Hartmann, Internet; “Ciência, sentido e evolução: a cosmologia de Jacob Boehme”, de B. Nicolescu, com texto Os seis pontos teosóficos, de Boehme, como apêndice, pela Attar; "A senda do homem celeste", J. G. Gicthel, discípulo de Boehme, Polar; e “O conhecimento iniciático”, R. Steiner, Antroposófica. Para uma consulta sobre as cosmogonias tradicionais, Cf. "Os diferentes níveis de realidade", P. Paul, Polar.
8. Por que Deus não pode “perdoar” Lúcifer? Primeiro, isto tiraria o valor da Justiça divina; e segundo, e sobretudo, Deus não pode faze-lo, pois o Fogo ou Cólera é sua potência e um aspecto de Seu Ser, que só se torna Mal nas criaturas como Lúcifer, que separaram deliberadamente o Fogo da Luz, caindo no Mundo de Trevas livremente.
domingo, 9 de novembro de 2008
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